“São vozes, senhor, são vozes!”, artigo de opinião de Graça Simões

Este artigo de opinião foi originalmente publicado no Jornal As Beiras.

Em Coimbra “aprende-se a dizer saudade”, entoamos em coro, muito orgulhosos. Em Portugal, tem-se medo de existir, refletem filósofos como José Gil, num nevoeiro de autoflagelação, como ensaia Boaventura de Sousa Santos. A democracia fechou-se em estruturas representativas de governo e o espaço público nunca chegou a consolidar-se. Os media substituíram-se a ele e calaram as vozes do povo, sossegado e consumidor de bens e ideias feitas.

A crise da democracia representativa não é apenas portuguesa, sendo um tema central das retóricas da sociologia política, problematizando o grave e perigoso afastamento entre eleitos e eleitores, entre governantes e governados. É importante esta discussão, sobretudo no âmbito da problemática União Europeia, mas tal não nos dispensa de olhar à volta de nós e perguntar o que podemos fazer para inverter esta lógica de dominação que vamos deixando assentar.

Na esfera do governo local é direta a entrada desta pergunta – o que podemos fazer? E a resposta não podia ser mais simples – apostar na democracia participativa, ecoar as vozes dos cidadãos. A forma fechada dos órgãos autárquicos não está escrita na pedra, mas apenas no hábito construído sobre a ideia errada de que a participação dos cidadãos começa e acaba no ato eleitoral. E assim, tanto na Assembleia Municipal como nas Assembleias de Freguesia, formaliza-se e restringe-se de tal modo a participação do “público”, que afasta toda a espontaneidade e vontade de a usar. O serem considerados “público” já diz muito da lógica que assiste aos regulamentos.

Depois, e sobretudo, admitindo que as políticas não são inteiramente delineadas pelos representantes eleitos, a ligação aos representados tem-se feito, quase em exclusivo, pela via partidária, o que não favorece em geral o enriquecimento da discussão e da prática política, levando a um afunilamento de perspetivas e a um alinhamento pelo interesse dominante.

A alternativa está no fortalecimento da participação cidadã, em associações e em torno de causas e interesses parcelares, mas também em movimentos políticos globais e abertos que aceitam e assumem o seu papel na democracia representativa, fazendo entrar na rede da decisão política todos os interesses compatíveis e articulados com o bem público.

O Movimento Cidadãos por Coimbra é o único com este desígnio e cariz, tanto pela abertura na construção de uma candidatura ancorada em ideias e não em personalidades com auréolas messiânicas, que só podem vincar o referido “medo de existir”, como pelo compromisso na continuidade da escuta e mobilização da participação cidadã durante todo o mandato.

Não há milagres à espera, nem com santas generosas como padroeiras. O que se espera e se quer construir é uma atitude mais cívica, com vozes que se apropriem do espaço público e recusem os mandos impostos.

Esta não é uma receita apenas para Coimbra, mas com o seu jeito saudosista e elitista, é ela que mais precisa do milagre – São vozes, senhores, são muitas vozes!

Graça Maria Jegundo Simões
1ª candidata à Assembleia Municipal pelo Movimento Cidadãos por Coimbra

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