“O Rei Vai Nu” ou “Comei e calai: tendes aqui um MetroBus”, a opinião de Catarina Martins

Na passada sexta-feira, foi apresentado em Coimbra pelo Ministro das Infraestruturas, Pedro Marques, a solução para o Sistema de Mobilidade do Mondego. Na sessão, para a qual o PS convocou devidamente os seus militantes, o tom celebratório, próprio de campanha eleitoral, foi dado pelo Presidente da Câmara, ameaçando, à sua boa maneira autoritária, que a oposição à solução encontrada, por parte dos “estorvos do costume” não poderia ser tolerada. Meia dúzia de técnicos do LNEC sucederam-se para dar solenidade a um power point mal-amanhado, e de lá saímos, sem Metro Ligeiro de Superfície, mas com uma coisa, nem carne nem peixe, a quem, por isso mesmo, se chamou pomposamente MetroBus.

Reza o conto “ O Fato Novo do Imperador” que foi necessária a voz verdadeira de uma criança para gritar “O Rei Vai Nu” num contexto semelhante de encenação e exibição de poder, em relação ao qual toda a gente vê o óbvio, mas não contesta, num unanimismo de interesses, que alimenta esse mesmo poder e quem dele lucra. Porém, dizer que a solução MetroBus é má é tão óbvio, tão verdadeiro e tão necessário quanto gritar “O Rei Vai Nu”. O que foi apresentado em Coimbra representa a capitulação, por parte do governo e dos autarcas da região, a um único argumento vindo de Bruxelas: a UE não dá dinheiro e o governo não considera Coimbra e a região dignas de um investimento de mais de 100 milhões, por mais estruturante que este seja numa perspetiva regional e que as populações o aguardem há três décadas, depois de terem sido roubadas do transporte ferroviário que as servia e de Coimbra ter visto o seu centro histórico demolido em nome da solução de mobilidade moderna que estava prevista – o Metro Ligeiro de Superfície como eixo de uma rede de transportes intermunicipal que colocaria Coimbra ao nível de congéneres europeias neste domínio. Ou seja, o MetroBus não é a melhor solução, não é sequer uma solução “razoável” e seis técnicos do LNEC não foram suficientes para que, na audiência, mesmo entre as hostes obedientes do PS, se ouvisse, em desabafos exclamativos, o tal “o rei vai nu”: “Mas são autocarros?!”.

De facto, o que foi apresentado pelo Ministro como um milagre definitivo, já no terreno, a concluir em três anos e meio, e – não por acaso – com o “brinde” do anúncio da requalificação da estação ferroviária de Coimbra B (e quanto ao resto é papar e andar, porque já andamos há anos demais nisto, e não se queixem, porque até levam um “rebuçado”), é uma solução que tem vindo a ser abandonada noutros locais da Europa por causa dos muitos problemas que causou e que o estudo do LNEC ficou longe de assegurar que não se repetiriam aqui – muito pelo contrário. A economia que se consegue nesta solução em relação ao Metro Ligeiro de Superfície deve-se, em muito, à anulação do túnel previsto para a Cruz de Celas, a qual surge sem justificação e sem soluções de inserção urbana para o MetroBus, o que, desde logo, faz antecipar problemas enormes que os munícipes terão de pagar caro, a curto e a longo prazo. Acrescem aqueles que concernem a segurança dos passageiros no troço suburbano, a despeito das soluções de guiamento apresentadas, as quais, segundo admitiram os técnicos, são bastante falíveis em condições meteorológicas adversas, como aquelas que existem no Ramal da Lousã durante o Inverno.

Muito embora permaneça a suspeita de que poderá tratar-se apenas de foguetório pré-eleitoral (a Presidente da CCDRC só agora irá inscrever o projeto no Programa Operacional Regional, na parte de infraestruturas, quanto ao material circulante “há a possibilidade de outros fundos”, ou seja, nem o financiamento é certo, mesmo para uma solução má), não podemos desvalorizar a solução ora apresentada. Em coerência com o que sempre defendeu e com o que foi aprovado na Assembleia da República em sucessivos projetos de resolução, o BE chamará o Ministro para o questionar sobre o que, para além do mais, é uma falta perante compromissos assumidos para com as populações envolvidas e um desrespeito da democracia e insistirá no Metro Ligeiro de Superfície como a única solução boa e digna desta região. Em Coimbra, os Cidadãos por Coimbra manter-se-ão vigilantes, analisando com rigor todos os detalhes associados a esta proposta e cuidando para evitar que a solução encontrada se transforme num enorme bico de obra que pesará sobre os munícipes durante as próximas décadas, agravando, ao invés de solucionar, o caos que se vive em termos de transportes urbanos e suburbanos.

É preciso, sobretudo, encontrar para Coimbra e os municípios circundantes uma estratégia integrada de mobilidade que valorize os transportes públicos, revalorizando urgentemente os SMTUC, que se encontram em declínio acentuado, com uma perda sistemática e extensa de passageiros para o transporte privado. Lutaremos nestas duas frentes e Coimbra pode contar com o nosso compromisso. Na hora de votar, é preciso saber que não só podemos, como é nosso dever, dizer “o rei vai nu”.

Catarina Isabel Martins

Deputada municipal eleita pelos Cidadãos por Coimbra

Membro da Coordenadora do Bloco de Esquerda / Coimbra

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2 comentários

  • Movimento de Defesa do Ramal da Lousã

    Movimento de Defesa do Ramal da Lousã
    É vergonhosa a falta de consideração e desprezo com que nos tratam
    Aproxima-se mais um acto eleitoral e, mais uma vez, a população utente do Ramal da Lousã é presenteada com um embuste alcunhado de “metrobus”, semelhante a outro que já nos tentaram impingir em 2010 e que de imediato foi recusado, por ser considerada cara a sua implementação, lento na circulação e perigosa a sua aplicação no ramal, devido à existência de tuneis e uma ponte em curva. Agora e mais uma vez o que interessa é tentar enganar os “pacóvios serranos”, o “inculto” Zé-Povinho. Supõe-se que este nada sabe e como tal o seu querer, por mais razão que lhe assista, em nada interessa e pode levar com qualquer porcaria que suas excelências entenderem.
    O fundamental é garantir que o corporativismo funcione. A democracia? Essa fica reduzida ao acto eleitoral e só mesmo, porque pareceria mal acabar com as eleições.
    Mas, o “Zé- Povinho”, embora possa não ter curso superior ou cargo de nomeação com direito a mordomias (carro, motorista, remuneração pomposa, cartão de crédito, reforma antecipada e de luxo), não é burro!
    O “Zé- Povinho” é reivindicativo e exigente, quer que lhe devolvam o que roubaram, quer o comboio, quer o Ramal da Lousã novamente a funcionar.
    O “Zé- Povinho”, como não é ESTÚPIDO, sabe que o estão a enganar e prefere que lhe chamem pacóvio, serrano, aldeão ou até inculto. Mas ESTÚPIDO é que NÃO!
    O “Zé- Povinho” exige que deixem de brincar com os utentes do Ramal da Lousã, cumpram com as recomendações do Tribunal de Contas e da Assembleia da República e procedam à reposição dos carris, comboio e electrificação da via. Assim deixará de ser necessário que “outros” tenham de ser intimados a vir aos concelhos servidos pelo ramal substituir-se na tarefa de comunicar (e debater não?) aos munícipes aquilo que os autarcas teriam obrigação de fazer.
    Uma solução sem qualquer garantia efectiva de financiamento por parte da Comunidade Europeia, cuja eficácia na implantação, segurança e tempos de viagem foi oportunamente questionada pelos movimentos de defesa do ramal, alguns autarcas e o professor Manuel Tão. Este especialista em planeamento de transportes já em 2010 se manifestou, de modo fundamentado, contra aquilo que agora nos querem de novo impingir. Neste momento, nenhuma outra solução é aceitável para o ramal a não ser a reposição dos CARRIS, dos COMBOIOS e a ELECTRIFICAÇÃO.
    A nossa região merece dispor de um sistema de transporte colectivo económica e ecologicamente sustentável, ambivalente (passageiros e mercadorias), SEGURO e rápido.
    A solução de mobilidade para a cidade de Coimbra não pode prejudicar o transporte ferroviário que as populações de Miranda do Corvo e da Lousã conquistaram há mais de um século.
    Estamos fartos da falta de democracia e de respeito com que alguns governantes e outras autoridades tratam questões tão determinantes para a nossa vida e para o futuro da região. É tempo de encerrar a “tecnicamente falida” MM e devolver o ramal à rede ferroviária nacional. DEVOLVAM O QUE NOS ROUBARAM!
    Movimento de Defesa do Ramal da Lousã
    07.06.2017

  • “(…) a UE não dá dinheiro e o governo não considera Coimbra e a região dignas de um investimento de mais de 100 milhões, por mais estruturante que este seja numa perspetiva regional e que as populações o aguardem há três décadas”. Infelizmente, não há verdade mais crua do que esta. E o que é pena para todos os cidadãos, de Coimbra até Serpins, é termos autarcas que aceitam este sucedâneo de metro de superfície com uma tibieza desesperante. É altura de os pormos a mexer! Em Outubro, temos de pôr em marcha um “sistema de mobilidade autárquica”: apeando os actuais e escolhendo outros autarcas.

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