Discurso de Catarina Martins no 43º aniversário do 25 de Abril 1974

Abaixo transcrevemos o discurso completo de Catarina Isabel Martins, deputada municipal e representante do Movimento Cidadãos por Coimbra na sessão solene evocativa do quadragésimo terceiro aniversário do 25 de Abril 1974 que decorreu na Câmara Municipal de Coimbra, na manhã de 25 de Abril de 2017.

Exº Senhor Presidente da Assembleia Municipal de Coimbra
Exº. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Coimbra
Senhoras e Senhores Deputados Municipais
Senhoras e Senhores Vereadores
Senhoras e Senhores Jornalistas
Minhas Senhoras e meus Senhores

Tinha apenas 3 anos no dia 25 de Abril de 1974 e, no entanto, recordo vivamente esse dia. A incerteza e a inquietação que entraram na minha casa, seguidas por uma felicidade imensa, tiveram a ver com o facto de, por causa da revolução, o meu pai não ter sido enviado para a guerra colonial. Cresci, pois, numa família que inculcou em mim os valores de Abril, o dever da memória, a ética do respeito mais profundo e mais rigoroso pela paz, a liberdade, a democracia, a igualdade, a importância do combate mais empenhado e mais vigoroso pelos direitos de todos e de todas. A cada 25 de Abril o meu pai inundava a rua em que vivíamos com música de intervenção, colocando na varanda as colunas que obrigavam quem queria e quem não queria a escutar as vozes de Zeca Afonso, Adriano, José Mário Branco. Aprendi assim, com o meu pai e com o PREC, com os seus defeitos, mas com as suas enormes virtudes, que o poder estava na rua, devia estar e tinha de estar na rua. O poder fraterno, solidário, companheiro, das ânsias e ambições das mulheres e dos homens, do povo. Daquilo a que, agora, chamamos e bem, cidadania.

Sou professora universitária e, curiosamente, estudo, entre outras coisas, a cultura e a memória. Não há uma memória única, há memórias diversas que se constroem, entre outros, através de rituais comemorativos, que determinam as presenças e os esquecimentos. A minha memória subjetiva é a das canções inundando a rua, ritual com que o meu pai tornava presente as marés de gente esfuziantes, plenas de alegria e esperança que repetidamente saíram à rua no momento da revolução e nos meses que se seguiram: a rua, o povo, o poder transformador, o poder de cada mulher e cada homem, juntos, libertos da ditadura, caminhando pela felicidade comum. Esta é a memória que continuo a considerar ser aquela que nos obriga, que nos vincula como um dever ético.

Outros rituais, outras evocações, outra a memória. É outra a ideia do 25 de abril que se configura nestas cerimónias oficiais, nos Paços do Concelho, numa sala nobre, com um propósito nobre, mas ainda assim não na rua e não com o povo, por mais que o evoquemos. E por ser outra a ideia do 25 de abril que é criada pelo peso cerimonial desta sessão, pela espessura destas paredes, pela altura das varandas em que foi içada a bandeira em relação à rua que fica lá em baixo, porque é outra a ideia de abril que este cenário traz consigo, somos convocados e convocadas a refletir. Temos o dever de pensar sobre o que somos e o que fazemos aqui enquanto representantes do poder democrático e, em particular, do poder local que Abril também nos legou. Temos de nos interrogar sobre a democraticidade das nossas decisões e dos nossos actos, sobre a cidadania e o lugar que lhe reservamos. Abril impõe esta reflexão e um balanço que não é cem por cento positivo. Os 40 anos de Poder Local, recentemente comemorados, não são, em muitos casos, motivo do nosso orgulho. A ideia de dever e de causa pública foi-se perdendo ao longo do tempo. A política de proximidade, de serviços às populações, de construção de territórios igualitários, deu lugar, muitas vezes, aos privilégios e ao clientelismo. Noutros casos, passou-se à gestão autocrática, para a qual a rua, o povo, a coisa pública, a vontade coletiva, não só nada contam, como são obstáculos a interesses e fins individuais. Não seríamos responsáveis se disséssemos que Coimbra não sofreu este processo. O concelho vive uma degradação sem precedentes, um alheamento dos seus habitantes em relação ao espaço comum que habitam e às más políticas com que tem sido gerido há já muitos anos, um distanciamento da democracia motivado pelo desgosto e pelo desalento de quem bate a portas que nunca se abrem, de quem nunca é ouvido, de quem vê necessidades e anseios desconsiderados e negados por um poder que ignora a ética e a responsabilidade que Abril nos delegou.

É preciso, pois, em Coimbra, reconstruir Abril. Renovar o poder, regressando aos fundamentos: a rua, o povo, a cidadania. A democracia como soberania popular. A representação política como execução dessa vontade. O governo como serviço do povo e da comunidade, como construção da igualdade e da justiça, do desenvolvimento e do bem-viver. A política regida sempre, de muito, muito perto, por uma cidadania estimulada, ativa, valorizada, respeitada como a fonte e a sede de todo o poder republicano e democrático.

Outros rituais, outras evocações, mas não menos responsabilidade. O peso cerimonial e oficial que sobre nós recai, aqui, neste salão nobre, não pode impedir-nos de estarmos aqui e estarmos na rua. De preservarmos a ética de Abril. De aprofundarmos os deveres de Abril. De sermos o que Abril reclama de nós. 25 de abril sempre!

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