Ora Zumba nas Mulheres (ou como comemorar o Dia Internacional da Mulher à Machadada)

 

O site da Câmara Municipal de Coimbra anuncia um evento intitulado “Coimbra Pink Move – Desportiva Woman Day”, que terá lugar no próximo dia 11 de março. Para além de aulas de zumba, o evento em tons de rosa, a decorrer no lugar que pretende ser o epicentro da Cultura em Coimbra – o Convento de S. Francisco – oferece às mulheres “penteados, maquilhagem, unha de gel e massagens” e conta, como abrilhantadora, uma modelo e atriz que alguns órgãos de comunicação da cidade destacam pelas suas capacidades na arte da dança do varão. O evento pretende promover a recolha de donativos para uma instituição de acolhimento de mães adolescentes ou mulheres jovens em risco.

Nada me move contra a zumba, os cuidados de beleza, sequer a dança do varão, nem quem gosta destas práticas. Confesso-me até culpada exercer algumas delas. O problema reside no facto de este evento constituir, para uma autarquia, a celebração do Dia Internacional da Mulher. Não ignora o Presidente da Câmara, Manuel Machado, que até o refere (muito lateralmente) na sessão de apresentação do evento, que o Dia Internacional da Mulher celebra e prolonga as lutas das mulheres iniciadas no final do séc. XIX pela igualdade de direitos políticos, sociais e económicos, em particular contra a exploração no trabalho e pelo direito ao voto. Não ignorará, certamente, enquanto socialista, que essas lutas tiveram como protagonistas figuras míticas do socialismo, como Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo ou Alexandra Kollontai, e que envolveram, principalmente, mulheres operárias do setor têxtil, na Europa e nos EUA, através de greves que protestavam contra condições de vida e de trabalho miseráveis. Não ignorará também que a ONU, ao declarar, em 1977, o 8 de março como Dia Internacional Da Mulher, homenageia as vidas sacrificadas pelas causas das mulheres, comemora os longos combates por condição de igualdade ainda não alcançada, e acentua a necessidade de prosseguir os esforços neste sentido. De resto, o tema destacado pela ONU para a edição deste ano ressalta a dimensão do trabalho, onde as desigualdades acentuadas persistem.

Não é aceitável, portanto, que o governo autárquico que representa uma cidade escolha para celebrar esta data um evento que, pelas suas características, não somente insulta o significado das lutas centenárias das mulheres, pervertendo o próprio significado do Dia Internacional da Mulher, como menoriza as mulheres, evocando-as de forma machista, na condição de corpo-objeto ou na dimensão fútil dos cuidados de beleza que servem ao olhar masculino.

Para além disso, a dimensão caritativa do evento, em que a Câmara de Coimbra se limita a promover a recolha de eventuais dádivas, em parceria com uma entidade comercial, que fornecerá os bilhetes (gratuitos) para o evento (e daí recolherá os óbvios benefícios de promoção), é reveladora de uma visão distorcida do que deve ser uma política social e uma política municipal para a igualdade de género. Por muito meritória que seja a atividade da instituição beneficiária (que não está em causa), o seu trabalho não deveria estar sujeito a eventuais donativos recolhidos por ocasião de um evento “desportivo-cultural”. A sua atividade deveria estar enquadrada num programa de ação amplo e integrado da autarquia no domínio da igualdade social, com apoios criteriosos, suficientes e sustentados, que configurassem uma política de “direitos humanos” digna desse nome. Quem conhece a autarquia de Coimbra sabe que não existe nenhuma estratégia neste domínio, que os “direitos humanos”, com que Manuel Machado enche a boca a propósito deste evento, não passam de um chavão e que a política social da Câmara não passa de uma série de iniciativas dispersas, com uma dotação ínfima no orçamento camarário.

Infelizmente, pouco há a esperar de uma Câmara para a qual as mulheres não merecem mais do que um “ora zumba”.

Catarina Isabel Martins

Professora Universitária

Deputada na Assembleia Municipal de Coimbra, eleita pelo Movimento Cidadãos por Coimbra

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One comment

  • Os meus parabéns à C.M. Coimbra. (é claro que estou a ser sarcástico!). Gostava de olhar olhos-nos-olhos no ATRASADO MENTAL que teve esta ideia, digna do tempo de Herodes! Dia da Mulher: Oferta de unhas de gel, maquilagem e… (espasme-se!!!)… aulas gratuítas de dança de varão, ou “pole dance”!! Ou seja, o Dia da Mulher (usado como 2.º dia dos namorados) é usado para as mulheres se embonecarem e ficarem todas bonitas para os maridos e no fundo fazerem o seu papel de… “PUT@S”!!! É assim que este gajos da CM Coimbra pensam da Mulher! E já agora satisfaçam-me uma curiosidade: também ofereceu aulas de pole dance e unhas de gel às mulheres idosas?? Deve estar a fazer uma enorme confusão: Era o Dia Interacional da Mulher e não o Dia da Gaja Boa!

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