E agora a Via Central…

Um press release do executivo Municipal dá conta do dispêndio de 770 mil euros no “início das obras da Via Central”, estamos no princípio do mês de Novembro de 2016.

Vamos então por partes:

1. O que é necessário fazer numa área tão sensível, tantas vezes referida como o coração histórico da cidade, não é uma empreitada de infra-estruturação e pavimentação de ruas, tal como se actuaria em qualquer loteamento suburbano de baixo standard.
Não, o que é necessário fazer não são as “obras” do regime a um ano das eleições. Não é a pavimentação do “Largo da Matriz”, nem o “tapete betuminoso da variante”.
Há cerca de trinta anos atrás, actuava-se assim nas sedes dos concelhos mais periféricos. Todos reconhecemos hoje os resultados nefastos dessa actuação.
Esses foram de resto os critérios usados para as intervenções recentes no espaço público de Coimbra, Estação Velha, Avenida Navarro e Terreiro da Erva.

2. O que é necessário fazer numa área tão sensível como esta, bem como, de um modo geral, em todas as obras públicas que se revelem decisivas para a conformação da cidade, é uma intervenção integrada, na qual a Câmara Municipal de Coimbra desempenha um papel fulcral de regulação e de gestão. Ou seja, gere e garante intervenções estratégicas e qualificadas. Mas não detém o exclusivo da intervenção. Tratar-se-ia, em qualquer instância minimamente civilizada, de dar sequência ao que comummente se designa como um projecto urbano, cujas principais premissas são:

a) a produção de efeitos fora da estrita área de intervenção;

b) o carácter complexo e interdependente dos conteúdos, a superação da monofuncionalidade, a mistura de usos, a promoção da mistura de utentes, de ritmos temporais e de dinâmicas culturais;

c) tempo de execução intermédio, a completar-se num tempo limite máximo de poucos anos;

d) vontade de promover uma arquitectura urbana, independentemente da forma específica de cada um dos edifícios a construir/reabilitar. Hoje em dia, em todo o mundo e particularmente na Europa, a atractividade das cidades joga-se também na extrema qualidade das intervenções de reabilitação (por isso se chamam de reabilitação e requalificação);

e) uma componente pública significativa (embora não exclusiva) nos investimentos, na gestão do projecto e na definição dos usos colectivos do programa.

3. A função dos responsáveis políticos do Município será, então, tornar viáveis e sucedidas todas e cada uma das intenções atrás enunciadas. Tarefa de gestão imensa, altamente exigente e especializada, tantas vezes reveladora da qualidade da acção política.
O papel dos responsáveis políticos eleitos não é dar indicações técnicas sobre condicionantes da obra, não é escolher os materiais nem os candeeiros disponíveis no mercado, não é opinar sobre a melhor maneira de assentar os lancis. Muito menos será decidir diletantemente sobre a fluidificação do tráfego rodoviário (Não o era há trinta anos atrás nas mais recônditas periferias, não queremos que o seja hoje no coração de uma das mais antigas cidades da Europa).

4. Para a área em questão, para o espaço entre a Avenida Fernão de Magalhães e o Largo de Sansão, existe já um projecto acabado e aprovado, cujo responsável é o Arquitecto Gonçalo Byrne. Esse projecto pressupõe precisamente os preceitos descritos no ponto 2.

5. O que vai ter início nessa área muito em breve não é esse projecto. Não há nenhum indício de que seja esse projecto. Há, sim, muitos indícios de que seja um tipo de actuação mais voluntarista e despachada, como aquela a que temos assistido sistematicamente nos últimos anos. São 770 mil euros saídos dos bolsos dos contribuintes para pavimentar e pôr candeeiros, a gosto e a bel-prazer de quem manda.

6. A 28 de Junho de 2016, através da colocação de um painel outdoor gigante na fachada dos prédios do Largo de Sansão, ficámos nós todos, cidadãos e cidadãs, a saber que o que viesse ali a ser feito respeitaria o tal projecto do Arquitecto Gonçalo Byrne. Até ser retirado o painel, todos podemos ainda testemunhar o que lá está escrito.

Pois bem, ficamos então agora a saber que o que lá está escrito, como de resto já era de prever, não passa de mais uma ROTUNDA e grosseira falta de respeito pelo sentido de verdade dos cidadãos e das cidadãs.
6 de Novembro de 2016
José António Bandeirinha

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