O Trato do Espaço Público em Coimbra

Intervenção de José António Bandeirinha na última Assembleia Municipal

O Rio Mondego faz parte do caráter da nossa cidade. O troço em que Coimbra se espelha nele, numa extensão de mais de 6 quilómetros, é parte da cidade, pois esta não é só ruas e edifícios. O Rio define a imagem da cidade e é dela um elemento central. Faz parte da sua cultura e é património. Não pode deixar de ser pensado em conjunto e em ligação com a nossa vida urbana, muito especialmente com a da baixa.img-20160903-wa0006

Foi na segunda metade do século XIX que se construiu o atual sistema de muros, rampas e escadas que acompanhou a construção de duas infraestruturas centrais da Coimbra moderna: a nova ponte metálica, aberta em 1875, e a chegada do caminho-de-ferro ao centro da cidade, em 1885.  Hoje, a instabilidade física dos muros e o assoreamento obriga a uma intervenção urgente. Mas ela deve ser bem pensada, discutida e ter a ambição de revigorar a relação das pessoas com o rio, em termos contemporâneos, como é bem visível em cidades qualificadas.

Há riscos. Há um problema do assoreamento. Mas há, sobretudo, um problema urbano que pode e deve ser bem resolvido. Sabe-se que a Câmara mandou fazer um projeto de intervenção. Sabe-se que cerca de 10 milhões de euros vão ali ser investidos. Mas sabe-se mais alguma coisa? Divulgou-se informação? Promoveu-se a discussão? Envolveram-se os cidadãos? Temos perguntado à cidade: “Sabem que se vai intervir no Mondego e nas suas margens? Têm informação? Foram chamados a intervir e participar? Têm conhecimento que são 10 milhões de euros?”. Ninguém sabe nada. Ninguém foi convocado…

Antes que se crie mais um embuste rocambolesco como o da designada Via Central, vimos aqui procurar respostas para estas perguntas. Vamos alertar a cidade. Porque nos parece que, mais uma vez, o atual executivo municipal se prepara para passar ao lado de uma oportunidade histórica de promover um projeto urbano de qualidade para a nossa cidade, de realizar um grande concurso de projetos, participado pelos responsáveis e pelos munícipes. Os Cidadãos por Coimbra – CpC defendem a concretização de um projeto urbano de qualidade, através da realização de um concurso público de arquitetura e de engenharia, que permita associar a redefinição qualificada das margens do Mondego e do espaço público à necessária reabilitação do sistema de muros, escadas e rampas do rio, dando continuidade ao projeto do parque verde do Mondego (também ele resultado de um concurso, lembram-se? Sim, mas por imposição do Programa Polis, não por vontade do Município) – iniciativa que as forças cívicas independentes de Coimbra, desde sempre, incentivaram e apoiaram.

Ainda a este propósito, veja-se o que se fez e o que se vai fazer no Arnado, aproveitando a refuncionalização da vetusta Auto-Industrial. “Requalificaram” um edifício (o da antiga Guérin) que não tinha requalificação possível (pura e simplesmente porque não era qualificado). Agora, saída da manga de alguém, eis uma rotunda e uma estátua da Princesa Cindazunda, personagem mítica associada à fundação da cidade de Coimbra. Só uma nota para dizer que a presunção de que as pessoas são burras e não sabem que é mais provável que seja a Princesa Cindazunda que ocupa um lugar central no pendão do Município, carece de reparo. Se Fr. Bernardo de Brito disse que era ela e não a Rainha Santa, Sá de Miranda, na Fábula do Mondego, também diz que se tratar de uma Ninfa do Mondego, e o grande Gil Vicente, na Comédia da Divisa da Cidade de Coimbra se refere-se à Princesa Colimena.

Mas não é esta a questão principal. A questão principal é que enquanto se discute isto trata-se do espaço público da cidade como se fosse um assunto diletante. Não há nada que se pareça com um concurso público. Há a presunção de que uma rotunda suburbana vai “resolver problemas de trânsito” (que já nem sequer existem, tal a desertificação do centro). Faz-se uma encomenda directa a um escultor e não se sabe porque razão é essa a opção. Não estão em causa as suas qualificações, quaisquer que sejam, mas tão só a necessidade de qualificar a principal porta de entrada na zona de Património Mundial.

Mas mais grave ainda se torna quando toda aquela área foi, em tempos, alvo de um plano de pormenor altamente qualificado, encomendado pela REFER (portanto o Município nem sequer despendeu verbas) a um dos maiores urbanistas europeus do momento, o catalão Joan Busquets. É como se não existisse esse plano, publicamente exposto e participado, (Átrio da Câmara, Centros Comerciais da Cidade…). Ele é descaradamente omitido e então toca a fazer rotundas e estátuas a torto e a direito.

O espaço público é uma coisa muito séria — é o território da Res Pública, é o espaço que nos é comum por direito inalienável. Tem de ser tratado de um modo irrepreensível, tem de trazer consigo, na sua génese, o sentido de tudo o que nos é comum. Tem de ser altamente qualificado do ponto de vista técnico e, simultaneamente, austero e neutro para que dentro dele caibam todas as nossas diferentes sensibilidades.

Não se pode andar a homenagear a República e depois tratar o seu espaço de representação como se fosse a coutada própria, sujeito aos gostos individuais de quem manda.

Esta maioria leva três anos. O balanço só pode ser negativo e em alguns casos o negro é muito vivo. Não queremos que a intervenção nos Muros Mondego ou tratamento do espaço público do Arnado, sejam mais um exemplo de falta de informação e debate, de autoritarismo e de desdém pelas sensibilidades públicas, pelas sensibilidades daqueles que se apercebem muito claramente que, com Cindazunda ou com Colimena, a cidade se está a transformar num subúrbio desqualificado.

Se na véspera da adjudicação da obra estiver escrito num gigantesco outdoor que segue o Plano de Joan Busquets, não acreditem, que nós de certeza que também não…

7 Outubro 2016

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