Coimbra: um tecido urbano com manchas de cinzas? o comentário de José António Bandeirinha*

Em Coimbra, em toda a área da chamada cidade consolidada — que alcança muito mais do que habitualmente se designa por “Centro Histórico” — podemos encontrar espaços vazios, esquecidos quer do ponto de vista do arranjo urbano, quer do ponto de vista do estatuto do solo, são privados? são do domínio público?
Não há, não pode haver a mínima dúvida de que compete à autarquia, é sua clara obrigação elaborar planos de pormenor parcelares, que liguem estes vazios em continuidade recíproca com a chamada cidade consolidada. Isto em operações integradas e participadas de planeamento, ou seja, depois de ouvidos vizinhos, proprietários e demais entidades urbanas.
Há, no entanto, três ordens de argumentos que é necessário convocar a este propósito:

1- O caso específico aqui em apreço (fim da antiga Azinhaga dos Lóios) é particularmente explícito, mas não é único. A chamada cidade consolidada não o é tanto como deveria ser, ou seja, ainda há muito por consolidar. Os focos de descontinuidade estão identificados, têm sido ao longo dos anos objecto de estudo (interesse exclusivamente pedagógico) na escola onde trabalho. Há muitos planos para fazer, há uma imensidade de espaços urbanos vazios a requalificar.

2- A cidade é o espaço das continuidades. São as continuidades e a leitura do espaço como um todo que caracterizam, em grande medida, aquilo que nos habituámos a designar por urbanidade. Estes vazios urbanos devem-se a uma gritante incapacidade de entendimento da cidade como um todo, são espaços sobrantes da voracidade fundiária, são resíduos do consumo absurdo dos terrenos individuais. São resultado de práticas de planeamento parcelares, sem qualquer espécie de competência integradora. Ao longo de muitas décadas. Compete a uma autarquia que se preze, tratar e racionalizar a utilização urbana, pública e privada, desses espaços.

3- As considerações aqui traçadas não correspondem a uma “utopia” irresponsável, irrealizável do ponto de vista da “sustentabilidade” económica. Muito pelo contrário. A incapacidade tem sido tanta que nem para os especuladores e para os homens do “lucro fácil e imediato” isto tem sido bom. Como todo o desperdício, é mau para todos. Estes vazios têm imensas potencialidades económicas. Têm é se ser planeadas com grande responsabilidade. Com o interesse público sempre à frente do privado. E, sobretudo, com a prioridade da aposta numa grande qualidade urbana e arquitectónica. Se tudo isso fosse conseguido, a ver se não era também lucrativo… e muito.
*a este artigo
Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s