O metro ligeiro em Coimbra: uma necessidade urgente

Há mais de duas décadas, a cidade e a região de Coimbra têm vindo a sofrer a decadência de uma rede de transportes públicos fraca e ineficaz, que se transformou hoje numa actividade agonizante, inútil e em vias de colapso.

Os transportes públicos e a mobilidade são um dos indicadores mais fiáveis do índice de civilização e de urbanidade do território. Quando as cidades possuem sistemas de mobilidade bem estudados e bem estruturados, para além das óbvias vantagens energéticas e ambientais que isso traz, possuem também uma actividade essencial colectivizada e regulada, possuem modos de vida mais libertos dos constrangimentos e da dependência do meio de transporte individual, possuem opções de deslocação mais variadas e mais ricas, possuem um modo de vida mais consentâneo com os modelos da cidadania activa e democrática. Esses sistemas não existem por si, isolados da vida e das opções políticas das cidades. Têm como condição essencial o ordenamento equilibrado do território urbano, têm condicionantes de planeamento a montante e a jusante, condicionantes que não se compadecem jamais com a laissez faire da navegação à vista, nem com as mantas de retalhos de loteamentos privados desgarrados, para contrapartidas de favores político-eleitorais.

A instalação de um sistema de metro ligeiro de superfície em Coimbra não é, por conseguinte, apenas mais uma medida de beneficiação ou modernização de umas infraestruturas ferroviárias, muito menos deve ser encarada unicamente como a fixação na região de uma entidade empresarial na área dos transportes em comum. É isso tudo, mas deve ser muito mais.

Deve ser, no essencial, uma medida integrada de planeamento que transforma a cidade e a sua área envolvente num espaço muito mais organizado, abrangendo tendencialmente um leque de cidadãos muito mais vasto do que o actual. Deve contribuir para qualificar os territórios urbanos onde se insere. É por demais evidente, para quem conhece a realidade dos transportes em comum na maioria dos países europeus, que a implantação deste tipo de sistemas serviu também e complementarmente para abrir novas frentes urbanas, que vêm tornar mais agradáveis e mais civilizadas as áreas centrais da cidade. Não são, nunca foram, incompatíveis com as intenções de patrimonialização  dessas artérias, muito pelo contrário, servem para revitalizar áreas em decadência acentuada. Mas para que isso seja assim, é absolutamente necessário investir na qualidade dos projectos urbanos de intervenção.

No caso de Coimbra, a inserção do Metro Mondego, se for bem planeada, pode ser a medida mais eficaz para a revitalização social e económica dos espaços centrais da cidade, também eles em lenta e desprezada agonia.

As políticas de incentivo à densificação demográfica dos espaços urbanos centrais, que o movimento independente Cidadãos por Coimbra tem vindo a defender desde a primeira hora, são também essenciais para o êxito da implantação de um sistema de mobilidade estruturalmente assente no Metro Mondego.  A sustentabilidade do sistema depende obviamente da procura. Quanto mais gente for servida, maior é essa procura, mais sustentável se torna a grande capacidade de carga dos transportes.

Mas, para que tudo isto aconteça são necessários outros meios de pressão política e social, outras equipas de gestão que não aquelas que temos tido ao longo destas duas décadas. É necessária uma visão cidadã, uma visão fundamentada pelos saberes técnicos que proliferam sobre o assunto, centrados nos interesses da cidade, em suma, uma visão que ultrapasse a mera atribuição de cargos aos rapazes e às raparigas do partido A e do partido B.

São estas e muitas outras condições, que, diga-se, já levam uns bons trinta anos de atraso, que tornam ainda mais urgente o Metro Mondego. Mas sobre este projecto nada se sabe. O poder central e as empresas públicas de transportes têm vindo a fazer de contas que o problema do eléctrico ligeiro em Coimbra está a ser tratado em instância técnica superior, que vai haver uma qualquer solução perfeita e milagrosa. Provavelmente os mesmos autocarros que já fazem as carreiras de substituição da ferrovia que nos foi subtraída. O poder local, por um lado, tem sido incapaz de fazer pressão para que o sistema de mobilidade do Mondego possa vir a ser contemplado nos apoios do Estado, por outro lado, esquiva-se permanentemente a ter uma opinião firme e fundamentada sobre o assunto.

Num dos últimos estudos orçamentais credíveis que a Metro Mondego desenvolveu, a infra-estruturação da rede cifrava-se num valor que rondava os 40 milhões. A infra-estruturação da componente urbana da rede não deve andar muito longe disso hoje em dia. Uma impossibilidade, dirão alguns, a cidade não merece, dirão outros. Recentemente, a comunicação social anuncia o investimento público de 240 milhões na ampliação da rede de metro do Porto. Esse investimento é visto como “absolutamente prioritário” pela edilidade portuense.

A Câmara de Coimbra, por sua vez, prepara-se para abandonar definitivamente o projecto do eléctrico rápido, por incapacidade de fazer pressão política para a sua prossecução, por um lado, e porque pretende abrir os canais dedicados ao trânsito rodoviário, por outro lado.

É por isso que é preciso reiterar o inequívoco apoio a esta modalidade de transportes em comum, a única capaz de revitalizar uma rede de transportes urbanos em acelerada agonia.

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