Intervenção de José Reis na AM de 30/06/2016

Quero manifestar a nossa imensa alegria, o nosso contentamento, por termos visto anunciadas ali fora, em letras garrafais, as três grandes causas por que nos batemos nos últimos tempos: um projeto de regeneração urbana para uma área da baixa que carece de uma intervenção qualificada (nisso consiste o programa de desenvolvimento urbano cuja prossecução caberá ao Arq. Gonçalo Byrne); a abertura de um canal para ser dedicado ao Metro e a trânsito de emergência (de acordo com aquele programa) e a preservação dos três prédios da Rua da Sofia (ainda de acordo com aquele programa).
Sim, é verdade, é para clamar vitória que aqui estou. Não em nome próprio, nem sequer em nome do movimento Cidadãos por Coimbra. Mas para o fazer em nome de um movimento cidadão, que se interessou por uma questão essencial da cidade, levantou a voz e disse o que queria. São muito mais de mil os cidadãos que já puseram a sua assinatura debaixo desta ideia.
Parafraseando José Mário Branco: “o que nós andámos para aqui chegar”! Conhecem a nossa posição, que foi sempre clara. Sabíamos que, nesta discussão, tínhamos obtido ganho de causa há muito tempo. Ganhámos uma causa quando mostrámos o que era inqualificável que se fizesse: esventrar um tecido urbano sensível, destruir património, fazer demolições para fazer passar carros. Ganhámos uma causa quando vimos tantos nomes de Coimbra declara a sua inquietação. Ganhámos uma causa quando todos esses levantaram a sua voz.
O que é difícil de entender é que, para se chegar aqui, tenhamos visto aprovar na Câmara uma proposta que é o exato inverso do que agora se assume, tenhamos ouvido tantas versões contraditórias, que mudavam em cada dia, tenhamos assistido à demonstração dolorosa que o governo da cidade se faz através do que muito bem calha na cabeça de um único homem, do desnorte, em vez de ser através do debate, da concertação de ideias e da deliberação clara. O que é difícil compreender é que até ao insulto se tenha chegado. O que é difícil de compreender é que seja nas letras garrafais de uma enorme lona do tamanho de tês edifícios que se assuma o que devia ser assumido pela palavra, pelo diálogo, pela intervenção ativa dos órgãos democráticos.
Mas seja! O que lá vai, lá vai e diz respeito apenas ao julgamento político dos cidadãos de Coimbra, que espero que seja exigente. Agora temos outras tarefas pela frente. A primeira é garantir que o ponto a que chegámos é sólido, claro, transparente e não continua sujeito à constante mudança de posições a que assistimos até agora. Trata-se de vincular a ação camarária aos pontos que anunciou e que nós sempre propusemos. A segunda tarefa é acompanhar um processo que, por ser muito exigente, não pode ficar ao acaso. Não pode ficar ao acaso a concretização do projeto do Sistema de Mobilidade do Mondego. Muito menos pode ficar ao acaso uma intervenção de escala urbana como a que se diz que vai se entregue ao Arq. Gonçalo Byrne. A tarefa mais elementar de todas é, evidentemente, substituir a deliberação camarária do dia 29 de fevereiro por outra que inclua todos estes pontos.
Este entendimento não justifica no entanto que não mantenhamos a proposta de referendo que aqui trazemos. Trata-se de trazer clarificação a este processo. E de vincular a Câmara a princípios claros, que são os que enunciei logo no início. As razões desta iniciativa estão todas elas na deliberação da Câmara de 29 de fevereiro deste ano, que é conhecida: só trata de demolições e da abertura de uma via de trânsito automóvel, sem uma palavra sobre intervenções de regeneração urbana, que é a grande e urgente prioridade desta zona da cidade. Os fundamentos são também claros e resumem-se numa pergunta, que dirijo aos membros desta assembleia: “algum de nós, algum dos presentes, conhece uma cidade portuguesa que nos últimos 30 anos tenha feito demolições no seu centro histórico para abrir uma via para carros?” Não há resposta positiva para esta pergunta. A pergunta poderia ser feita de outro modo, encurtando-a: “algum de nós, algum dos presentes, conhece uma cidade portuguesa que nos últimos 30 anos tenha feito demolições no seu centro histórico?”. A resposta agora seria sim: Lisboa. Mas foi por causa do incêndio do Chiado. E, perante isto, houve um presidente de câmara, Nuno Abecassis, que teve o gesto imediato de iniciar ali um processo de regeneração urbana entregue a um grande arquiteto português, Siza Vieira.

José Reis
AM, 30 de junho de 2016

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