O lugar mais escuro é sempre debaixo da luz

Cansada de viver mal onde devia viver bem, Mila Gadzinski, cidadã de Coimbra, moradora da Baixa, membro do grupo do CPC “Viver bem em Coimbra”, pediu para ser ouvida na última sessão pública do executivo camarário. Leia abaixo a intervenção de Mila Gadzinski.

 

Boa tarde Senhor Presidente da CMC, Senhora Vice-Presidente, Senhores Vereadores. Boa tarde a todos os cidadãos presentes

o meu nome é Maria C. S. R. Gadzinski, mas gosto de ser tratada informalmente por Mila Gadzinski. Nasci aqui no distrito de Coimbra e vivi a minha infância e juventude em Coimbra, estudei nas Letras, onde me formei em Filosofia, nos anos do pós 25 de Abril.  Nos Estados Unidos (EU), onde vivi quase 30 anos, depois de ter passado alguns anos noutros países da Europa, acabei por estudar Ciências Biomédicas e faço presentemente investigação independente, além de estar a tentar arrancar com um centro de terapia ocupacional para crianças com problema de aprendizagem e problemas comportamentais. Fiz também uma passagem breve durante uma pós-graduação pelo Departamento de Saúde Publica da Escola de Medicina da Universidade de Coimbra

Desde há cerca de 5 anos que divido o meu tempo entre Portugal e os EU, porque queria que o meu filho vivesse aqui algum tempo e ficasse a conhecer melhor a minha família e a cultura portuguesa.  Isto é possível porque o meu marido pode trabalhar à distancia e manter o emprego na Califórnia.  As mudanças que observei depois de uma tão longa ausência têm-me levado a refletir na questão da identidade desta cidade.  No fundo, o que é que caracteriza a identidade e a cultura da cidade, depois de vários ciclos de governação política e de todas as mudanças socio económicas e demográficas por que passou nas ultimas décadas?

Agradeço-vos esta oportunidade que me dão de exprimir a minha opinião relativamente a algumas questões que têm a ver com a qualidade de vida na nossa cidade, nomeadamente com a questão do ruído noturno, mas não só, porque no fundo estes problemas não aparecem isolados, a cidade é uma entidade orgânica onde tudo tem a ver com tudo. Como todas as cidades, a cidade de Coimbra tem alguns problemas, e ocorreu-me que alguns desses problemas podem ter a ver com uma certa crise de identidade que surgiu ou se intensificou no contexto da globalização.  Eu gosto de usar a palavra ethos como sinónimo de identidade. Ethos é o que é típico da maneira de ser de um povo, ou de um grupo de pessoas, de uma comunidade. Será daí que deriva o nosso sentido ético, com o qual o filósofo Kant se maravilhava. Maravilhava-o que houvesse uma natureza ética inata ao ser humano tanto quanto o maravilhava o céu estrelado.  Nem todos acreditam nessa natureza ética inata, mas eu também acredito que nascemos com os requisitos necessários para desenvolver essa natureza ética, e mais, que se não a desenvolvemos, outra coisa se instala em seu lugar, porque a natureza parece abominar o vazio, uma coisa para a qual não tenho nome, chamar-lhe-ei simplesmente um vazio moral que se transforma noutros vazios, emocional, existencial, social…

E nem é de admirar que assim seja, por uma razão muito simples, que tem a ver com a nossa biologia e a nossa evolução: é que provavelmente só chegámos onde chegámos, como espécie, porque fomos impelidos por essa auto-transcendência que se reflete na nossa natureza social e moral. Faz mesmo parte do nosso ethos como espécie, da nossa natureza.

Tentarei sumarizar alguns dos resultados das minhas reflexões sobre o ethos da cidade.

Todos nós sabemos que Coimbra é uma cidade histórica, o fundador da nacionalidade está aqui sepultado, que é uma cidade de estudantes, uma cidade universitária, como muitas outras pelo mundo fora, mas que tem uma longa história e muitas tradições. Nos EU também vivo junto a uma cidade universitária, Hanôver, na Nova Hampshire (Dartmouth College) e vivi e trabalhei muitos anos em Stanford, na Califórnia. Nunca ouvi os estudantes em Hanôver ou Stanford afirmarem, nem muito menos apregoarem pela noite fora, que a cidade lhes pertence, ou exibirem outras formas de comportamento que o dessem a entender, como aqui em Coimbra. Mas também ouço essa mesma mensagem, vinda não dos estudantes, mas de alguns adultos na nossa cidade, por exemplo no banco, no restaurante, até na CMC, o estribilho que tudo justifica: “O que seria de Coimbra sem os estudantes?”   É bom que a cidade abra o coração aos estudantes, há cidades onde infelizmente isso não acontece.  Em Inglaterra, por exemplo, em certas cidades os estudantes e os demais residentes têm as suas zonas de vida noturna segregadas dentro da cidade, poderá ser em parte devido a uma cultura de classes, mas queixam-se os residentes que os estudantes são barulhentos e malcriados. Os conimbricenses são bastante mais tolerantes, mas se aprofundarmos melhor o assunto, aperceber-nos-emos de que os grupos de pessoas que têm vindo a dar esse falso sentido de poder aos estudantes – porque e falso, eles também o sabem, ou tratariam melhor a cidade – e a despojar os conimbricenses duma boa dose do seu sentido de cidadania -no fundo muitos dos estudantes também são conimbricenses, mas não há aqui contradição nenhuma, eles também estão a ser despojados, ainda que por suas próprias mãos – as mesmas pessoas que desculpam os excessos, os comportamentos extremos, descontrolados, dos nossos estudantes, fazem-no não por grandeza de alma, mas por interesse próprio. Eu gosto dos jovens, acho-os mais sinceros, menos calculistas, e por isso mesmo isto me incomoda muito, e que tal como os restantes cidadãos de Coimbra, também os estudantes estão a ser enganados por argumentos falaciosos, no fundo são um grupo social muito vulnerável, porque são jovens, e porque muitos se encontram pela primeira vez distanciados das famílias.  Alguns até acreditam mesmo que têm de se comportar assim, que é o que deles se espera.  Acreditam que ficam mais fortes, depois de passar por muita bebedeira, muita noite mal dormida, e por todos os outros excessos que vêm a par com as noites de bebedeira. No Elogio da Loucura de Erasmus, a Loucura é filha da Juventude, a mais bela e alegre ninfa do mundo, mas foi criada pela bebedeira, companheira de tantos outros vícios (virtudes no entender da Loucura), como o Amor Próprio, o Culto do Prazer, a Preguiça, os Elogios Falsos, etc. etc.

Coimbra já existia como cidade antes da criação da universidade, sobreviveu bem os 150 anos que a universidade esteve em Lisboa, e quando D. João III transferiu a universidade definitivamente para Coimbra, a cidade estava em plena expansão.  Pelos vistos nem Lisboa era boa para os estudantes, oferecia-lhes demasiadas distrações, nem os estudantes para Lisboa, onde havia muito atrito entre a população e os estudantes. O que D. João III não podia ter adivinhado é que quase 500 anos mais tarde a renovação da economia urbana viria apostar na promoção da vida noturna, da qual os estudantes desfrutariam maioritariamente.  O que D. João III teria deduzido facilmente se pudesse ter tido uma tal premonição, é que a promoção intensa da vida noturna entre os estudantes iria causar tanto desconforto nas populações como danos na saúde dos estudantes e nos resultados académicos.  Por desagradável que seja recordá-lo, o ranking da universidade de Coimbra tem vindo a descer nos últimos 8 anos.  Em 2008 a universidade de Coimbra era a 1a universidade lusófona nos rankings internacionais, atualmente não só não o é, como mesmo em Portugal ocupa o 3o lugar nos rankings. Não sei explicar este fenómeno, diz-se que é uma universidade mais cosmopolita, temos mais estudantes internacionais, isso é bom, mas não explica a quebra em qualidade expressa nos rankings.

 

Nos três dias que precederam a última Queima das Fitas estive presente no Fórum da Noite Saudável da Cidade, uma iniciativa interdisciplinar para ser louvada, e da qual acredito advirão resultados palpáveis para a qualidade de vida na cidade.  Esta iniciativa foi promovida pelo Centro de Responsabilidade Integrada do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Coimbra, e por outras organizações ligadas à saúde.   Aprendi bastante sobre o que se passa nas noites da cidade, reforcei os meus conhecimentos sobre os efeitos nocivos do álcool em mentes jovens, em desenvolvimento até aos 25 anos, sobre as estatísticas relativas as correlações entre o consumo de álcool e tabaco e o consumo de substâncias psicoativas, sobre a relação entre a adição e a saúde mental, sobre as consequências da falta de sono em praticamente todas as funções vitais, incluindo cognição, emoção, metabolismo. Recordei também as preocupações do departamento de saúde sobre a baixa natalidade em Portugal, a esterilidade, a disfunção sexual, e as estatísticas da violência entre os jovens.  Confirmei o que está sobejamente pesquisado e demonstrado, que a prática do desporto parece proteger contra estes comportamentos recreativos excessivos, e que na universidade de Coimbra a percentagem de estudantes que pratica desporto e extremamente baixa, menos de 8%.  Admito que ate há bem pouco tempo estava alheia a este fenómeno da noite coimbrã, do qual ouvia falar, mas que permanecia uma abstração para mim, vivendo numa parte da cidade mais impermeável aos seus efeitos.  Já não é uma abstração, agora que vivo na baixa da cidade, junto ao Terreiro da Erva.  Mas ainda não me arrependi de ter comprado um apartamento nesta parte da cidade, porque acredito que há um futuro para a baixa, se as condições se criarem para que as populações aqui possam habitar.

Coimbra casou-se cedo com a universidade, talvez prematuramente, quem sabe?  Talvez não tivesse tido tempo de crescer, ficou para sempre a menina e moça, sujeita aos caprichos dos estudantes, ao amor louco e aos maus tratos.  E depois de tantos séculos parece não se ter ainda emancipado. A simbologia de Coimbra, tal como o género da palavra, é feminina, o que é irónico, dado que as mulheres sofrem mais com os excessos do estilo de vida noturno tão comum em Coimbra, com a falta de sono e o excesso de álcool, são mais vulneráveis, como estudos recentes tem constatado. Mas talvez isto no fundo esteja em consonância com o pseudo-romantismo da situação:  achamos talvez que há um certo charme nesta situação, e colocamos no altar de sacrifícios da cidade, todos os anos, 8 ou 9 noites, ou quantas forem necessárias, para alimentar a ilusão de que é esta a identidade de Coimbra, que não há outra.  Nem todos os conimbricenses concordam com este ethos, e muitos há que vão de férias na altura da queima das fitas, mas nem toda a gente tem essa oportunidade.  Eu pessoalmente, depois de 5 noites de tortura, a última das quais incluiu uma experiência de 300 bengalas de finalistas a bater no restaurante por baixo do meu apartamento, (não sei em que batiam, mas parecia que estavam a demolir o edifício, enquanto o meu filho que é atleta de remo e tinha o campeonato da Queima das Fitas no dia seguinte tentava em vão descansar), reservei um bungalow no parque de campismo da Portela para as restantes noites, mas ainda assim não consegui escapar ao batuque dos concertos no parque da cidade, que me acordava várias vezes durante a noite.  Quando acordava de manhã cedo ainda ouvia o batuque, mas já não sabia se era mesmo real, ou se durante o sono esse som se tinha imprimido indelevelmente nalgum par de neurónios do meu pobre cérebro privado de sono. O batuque lá ia desaparecendo, mas provavelmente os neurónios afetados também.  E a minha situação é de alto risco, porque na zona em que eu vivo a Queima das Fitas acontece todas as semanas, várias vezes por semana.

Houve algumas intervenções nesse Fórum da Noite Saudável da cidade que me ficaram gravadas na memória, pela sua pertinência.  Uma delas, uma educadora ligada as artes, perguntava, “Como é que deixámos chegar a cidade a este ponto?” depois acrescentava que gostaria de poder dormir sem ter o seu sono interrompido constantemente pelo ruído.  Não é por nada que a interrupção sistemática do sono é usada como técnica de tortura.  Outra intervenção, vinda dum educador também, atleta e desportista, dizia que não sabia bem porque é que estava ali, porque para ele uma noite saudável era uma noite bem dormida, depois de um dia saudável, passado ao ar livre, a treinar com os alunos.  Acertou em cheio, mas porque disse uma coisa tão óbvia, ninguém vai mais pensar no assunto. Como dizia o Sérgio Godinho, “o lugar mais escuro é sempre debaixo da luz.” Uma noite saudável depende de facto de um dia saudável, a hormona melatonina, que induz o sono, é sintetizada pelo nosso corpo a partir da serotonina, a produção da qual, a partir do aminoácido triptofano, necessita de exposição suficiente a luz solar. Um dia saudável, com energia para funcionar otimamente, segue-se a uma noite saudável: é esse o ritmo biológico com que evoluímos, os chamados ritmos circadianos, e esses ritmos existem não só no cérebro como em cada célula do corpo humano, regulando toda a nossa fisiologia.  Podemos desafiar o sistema de vez em quando, excecionalmente, os sistemas biológicos têm uma certa resiliência, mas quando a normalização do desvio se torna sistemática, fazemo-lo por nossa conta e risco.

Em relação à intervenção que interrogava sobre as razões da nossa passividade, acho que são muitas.  Por um lado, Coimbra parece sinceramente gostar dos estudantes, o que é mesmo um dos seus encantos.    Por outro lado, somos seres intensamente sociais, confiamos quase sem reservas que a cidade tomará conta dos nossos filhos, fará o que precisa de ser feito, se já não o fez. Estamos também, como os nossos jovens, muito sujeitos à pressão dos pares, e somos um pouco inseguros na nossa relação de educadores com os nossos filhos.

Uma palestrante no Fórum dizia que é muito difícil dizer “Não”. Outra palestrante dizia que tinha descoberto que precisava de dois tipos de regras, as que é possível quebrar, e as que não é possível quebrar.  Nem educadores nem governantes têm o privilégio de nunca ter de dizer Não.

Na minha experiência os jovens são até bastante flexíveis, em geral não têm dificuldade em aceitar um “Não” justificado, pronunciado decisivamente, sem hesitações:  O tal sentido ético inato. São os adultos muitas vezes que representam uma dificuldade, sobretudo quando questões mais altas do foro económico se levantam. Todos sabemos que existem fortes interesses comerciais associados à vida noturna e contextos recreativos dos jovens, e que estes interesses resistem muitas vezes às tentativas por parte dos residentes e das autarquias de fixar regras e regular horários e rotinas de fiscalização.  Numa cidade relativamente pequena como Coimbra, onde muitos comerciantes são cidadãos bem conhecidos e respeitados, este pode ser um fator de peso, travando o progresso no sentido de criar um equilíbrio adequado entre os interesses comerciais e os interesses relativos à saúde e bem estar das populações, incluindo os jovens. O capital humano dever estar forçosamente numa posição de prioridade em relação aos interesses comerciais. Os nossos jovens e as nossas crianças são o nosso futuro.  O que às vezes me parece, quando observo os comportamentos dos nossos jovens, e talvez porque estou bem a par dos comportamentos problemáticos que afetam também muitas crianças, e que se estendem para além da infância e adolescência, é que estes jovens precisam de alternativas saudáveis tanto para as suas noites como para os seus dias.  Tal como as crianças, precisam de usar o corpo, estão ainda a explorar e a aprender. Terá sido por isso que vi alguns dos nossos jovens de capa e batina no dia do cortejo a aproveitarem a oportunidade para brincar no parque infantil do parque verde, a trepar a estrutura, andar no baloiço, e porque não?  Gostei de os ver, foi refrescante.  O parque ainda está fechado desde as inundações, com um cadeado no portão, mas eles saltaram a vedação, como aliás o têm de fazer também as famílias que ai querem brincar aos fins de semana.

O progresso nas neurociências veio confirmar observações muito antigas sobre a importância da atividade física no desenvolvimento mental saudável. No fundo esta ideia remonta às culturas clássicas. O desenvolvimento do córtex e do neo córtex, sem o qual as nossas funções executivas ficam comprometidas, (como o parecem estar em tantos dos nossos jovens) tem lugar através da atividade física.   Estou a pensar no Professor Bissaya Barreto, que sublinhava a importância do brincar na aprendizagem.  Hoje em dia as crianças brincam menos, estão mais ocupadas com as atividades académicas e extracurriculares, muito estruturadas.  Precisamos duma mudança radical de paradigma na educação das nossas crianças, na utilização dos tempos livres, com mais tempo passado ao ar livre.  Precisamos de mais, muito mais parques infantis na cidade, e precisamos de alternativas recreativas também para os jovens, para as noites e para os dias.  Dependeremos para isso de iniciativas do município, de organizações governamentais e não governamentais, e do envolvimento da comunidade.  It takes a village to raise a child.

Quero felicitar a CMC por ter recentemente aprovado um novo regulamento que entrou em vigor em Abril, relativo aos horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais, que, apesar de infelizmente ter tido um impacto limitado nos horários de funcionamento dos estabelecimentos, aborda o problema do ruído noturno como um problema sério e responsabiliza os comerciantes por cumprirem e fazerem cumprir os regras do Regulamento Geral do Ruído (Artigos 6, 11, 15).  Este é um passo importante, se bem que somente um primeiro passo, mas de uma importância pedagógica muito grande.  Precisamos todos de aprender e abraçar um novo ethos, o ethos da comunidade que respeita o que é comum, a nossa natureza, as nossas necessidades e direitos básicos, e o que é diferente, os interesses contrários, mas no fundo complementares, duma comunidade saudável.

Obrigada a todos por me terem escutado,

Mila Gadzinski

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