Intervenção de José Reis na AM: Via Central, Rio, Coimbra

Não venho aqui para vos recordar as nossas firmes convicções na oposição que sempre demostrámos face à atual governação municipal. Nem para mais um vez falar da baixa qualidade da nossa democracia local, em que há quem não tolere um simples laço azul de solidariedade, arrancado-o brutalmente. Nem sequer para vos contar o desalento ou desespero que encontramos em muitos com quem falamos, especialmente os que querem criar emprego em Coimbra e veem uma câmara disfuncional. Tão-pouco venho lamentar que, num momento em que o país vive uma salutar redescoberta de si mesmo criando notabilíssimas alternativas que qualificam o país depois dos terríveis 4 anos passados, Coimbra, ao invés disso, viva uma espécie de austeridade democrática, tão empobrecedora como a outra. Tudo isto já sabem ou deduzem.

Venho aqui para declarar a nossa crescente preocupação com dois assuntos concretos que se afiguram muito graves.

O primeiro é sobre essa insólita ideia da “Via Central”. Propõem-nos que se bote abaixo para fazer um rasgo no tecido medieval da cidade, que o meu camarada José António Bandeirinha já aqui descreveu eloquentemente. Para fazer passar carros, certamente para os deixar estacionar nos passeios como se deixa por todo a cidade – isto se houver passeis, claro. Tudo sem ter a menor ideia do que se fará nas margens da ferida assim aberta. Sem nenhuma noção de como se trata uma centro de um cidade como a nossa. Só a força bruta da destruição para apresentar uma obra que é, na verdade, uma “desobra”. Uma “desobra” que, aliás, entregaria o projeto do Metro de mão beijada, pois isso seria também consequência desta obra insensata. Sabe-se, isso sim, que se deitarão a baixo 4 casas, da casa aninhas à da pastelaria palmeira, decepando a Rua da Sofia. Convido os membros desta Assembleia a irem à janela e a imaginarem o rasgão – “uma “ferida” gigante e grotesca”. Nem a classificação como Património Mundial desta parte da cidade, assim vilipendiada, sensibiliza a “grande visão”, toda ela feita de passado. Provavelmente porque já se imagina uma rotunda – mais uma grandiosa rotunda – ali a culminar a Praça 8 de maio e em frente à CGD. Não é disto que Coimbra precisa – Coimbra precisa de atos civilizados de gestão urbana.

O projeto de Gonçalo Byrne, aprovado para este local, feito com a sensibilidade de quem sabe no que está a mexer, e estritamente dedicado à passagem do metro é coisa esquecida, para não dizer espezinhada. Chamámos Gonçalo Byrne a Coimbra e convidámo-lo a falar no próximo dia 5. Exporemos o seu projeto para que se veja o que devia ser feito, inverso do que agora se quer fazer.

Por tudo isto, venho aqui declarar que o CpC tudo fará para que a cidade se oponha e denuncie aquilo que também Maló de Abreu, com sensatez, juntando-se ao que já dissemos, aqui chamou um crime. Fazer tudo é mesmo fazer tudo. Fica dito.

O outro assunto que nos preocupa é o rio e em especial os muros que o suportam. É preciso intervir no rio, claro. Desassoreá-lo. Mas é também urgente que se compreenda que os muros que o suportam são parte notável do património de Coimbra e da sua história. Basta ver fotografias e estudos antigos. Não são para intervir à bruta. Não nos surpreenderia se daqui a pouco nos confrontássemos com uma intervenção feita de qualquer maneira, sem falar com ninguém. Temos até medo que isso aconteça. Use-se a inteligência. Intervenha-se para reconstituir os muros e os cais, com a suas escadarias, para aproximar as pessoas do rio, como se faz hoje em muitas cidades.. Eliminem-se as barreiras que separam o rio. Aproveite-se a oportunidade. Tenha-se consciência da pérola urbana que a nossa baixa é. Usemo-la para uma verdadeira estratégia de regeneração urbana, que não é algo que aconteça só porque se façam obras. Informo que também sobre este assunto tomaremos iniciativas e não ficaremos nada satisfeitos se, com a habitual falta de visão, se cometer ali mais um crime patrimonial e urbano.

Gostava de lembrar o seguinte. Coimbra precisa de reclamar, é verdade. Falta-lhe tanto! Ligação a Viseu, serviço ferroviário digno, rio, regeneração urbana, Metro Mondego. Toda a lista justa que ainda há dias aqui ouvimos o Presidente da Câmara enunciar. Certo. Mas se não houver uma evidente demonstração de que Coimbra tem energia, é capaz de pensar com qualidade, sabe ligar as coisas para fazer uma cidade dinâmica, a nossa força será muito pequena. E pela falta disto que não nos ligam. Pode até acontecer que algumas daquelas reclamações sejam satisfeitas, embora aos fraco se dê sempre pouco. Mas não será isso que dotará Coimbra do que ela precisa para ganhar um futuro que hoje é tão negro. É preciso muito mais e isso só se pode ganhar cá dentro.

José Reis

Cidadãos por Coimbra

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