Capital da Alegria

Intervenção do deputado municipal do CPC, Rui Pato, na Sessão Solene de comemoração do 25 de Abril da Câmara Municipal de Coimbra

 

Venho falar em nome do movimento dos Cidadãos Por Coimbra. Mas falo também pela minha vivência e pela vivência da minha geração, aquela que viveu o fascismo, atravessou o 25 de Abril e está hoje disseminada pela sociedade portuguesa com 50, 60, 70 e alguns mais felizmente…

Em Coimbra acordámos um dia, ainda meninos, com a Portagem cheia de gente e o Delgado no meio da multidão e a dirigir-se para a varanda do Astória.  Na Brasileira eram presos os amigos, outros fugiam para bem longe…

Nesta cidade sucediam-se as crises académicas, 62, 65, 68… Plenários no Campo de Santa Cruz, na Praça da República, mais tarde nos jardins da nova AAC e cada vez mais rapazes como nós iam para a guerra

Em 62, conheci um senhor que me pediu que o acompanhasse a cantar coisas como os Meninos do Bairro Negro, como os Vampiros e…cantávamos sempre o QUALQUER DIA QUALQUER DIA…  E nunca deixámos de acreditar que qualquer dia qualquer dia   tudo mudaria…

Descobrimos que a cantar incomodávamos muita gente…embora não fosse suficiente.

Eu e muitos outros, aqui na cidade e na universidade reclamámos pelos nossos direitos de representantes do movimento estudantil…sofremos, tivemos alguma coragem e muito medo.

Entretanto conheci outro amigo com quem percorri o país a dizer que HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE RESISTE E QUE HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE DIZ NÃO.

Com muitos outros fui expulso e fui para o serviço militar… fui para Santarém; conheci Salgueiro Maia de quem me tornei amigo…eram os inícios dos anos 70. Salgueiro Maia queria que eu e o Joaquim Pais Brito lhe contássemos tudo sobre o movimento estudantil que nos tinha atirado para Santarém. Disse-nos que também não alinhava com o Estado Novo

Sou dos que não fui mobilizado, dos que vim terminar o curso. O meu amigo cantor cantava que o SOLDADINHO VINHA NUMA CAIXA DE PINHO…e já cantava que é o povo quem mais ordena…Fui com ele a Grândola…

Voltei , já médico para a tropa…Novamente…era o ano de 74…Estou no Hospital militar da Estrela no dia 25 de Abril…venho para a rua de ambulância e percorro todos os locais de assalto do movimento… deslumbrado…junto-me com os amigos ao fim do dia…somos recebidos pelas pessoas do local onde dormíamos…já como heróis…e com a porta pichada com Viva o MFA!

O 25 de Abril traz-nos a liberdade… finalmente o QUALQUER DIA, QUALQUER DIA…acontecia

Juntámo-nos todos no 1º DE MAIO.

Passámos a cantar as nossas cantigas, sem ter medo, sem ter a PIDE à porta… Cantei-as por toda a parte!

Sou médico…do primeiro curso médico a sair para a periferia, para as povoações que nunca tinham tido médico…

Sou do primeiro curso que vai fazer medicina no SNS e em exclusividade…

Fomos estudantes a lutar, fomos pioneiros nas cantigas que eram uma arma, estivemos como militares no 25 de Abril, viemos trabalhar para reconstruir um país adormecido, fomos trabalhadores por um Serviço Nacional de Saúde e, agora estamos aqui…

Falei muito de mim…pouco falei do Movimento dos Cidadãos…Acho que os meus camaradas me perdoarão. Mas falei de Coimbra…sempre estive e estou convencido que grande parte da nossa história passou por aqui, por esta cidade…

Por isso estamos no Movimento dos Cidadãos, por isso aqui estamos com muito orgulho, mantendo-nos fieis aos sonhos de que QUALQUER DIA QUALQUER DIA, nesta cidade, existirá um processo mobilizador, de cidadania, que faça de Coimbra uma grande cidade que não seja uma utopia, termino com as palavras daquele que me ensinou a força da cantiga:

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Que Coimbra tenha UMA VOZ ! Que não seja só a voz dolente dos seus cantores. Uma voz que lhe tem faltado

Nós, aqui na Câmara também insistimos em cantar o QUALQUER DIA…QUALQUER DIA…

 

Mas aquilo que eu queria vir aqui dizer era que

VALEU A PENA

Viva o 25 de Abril

 

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2 comentários

  • Excelente intervenção, com elevação, com simplicidade de um cidadão que ama Coimbra.
    Parabéns Dr Rui Pato

  • Ireneu S. Machado

    Enquanto abraçava o texto com o olhar, com o coração e com a memória, pensei que gostaria de enviar, aqui e agora, um abraço ao autor: Um abraço, Rui. Obrigado pelo teu excelente texto. Valeu a pena, sim. Só é pena que não tivesse acontecido alguns anos antes.

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