Rui Lobo sobre a Via Central no Diário As Beiras

A propósito do projecto da Via Central, sobre o qual o movimento Cidadãos Por Coimbra tem tomado uma posição crítica (sobre o nosso voto contra pode ler-se o porquê aqui), aconselhamos a leitura do artigo de opinião de Rui Lobo, professor do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, publicado na edição de ontem do "Diário As Beiras".

A “Via Central” do atual executivo camarário: um desastre para Coimbra

Os conimbricenses ficaram a conhecer, recentemente, os contornos do “projeto” camarário para a designada “Via Central” que estará já pronto a avançar, sem que se tenha feito qualquer discussão pública sobre os novos pressupostos que estão em cima da mesa. Surge também à revelia de qualquer norma instituída de salvaguarda de património, no contexto urbano delicado associado à Rua da Sofia (Conjunto de Interesse Público) e ao antigo Mosteiro de Santa Cruz (Monumento Nacional). Considero a intervenção programada um verdadeiro desastre para Coimbra, que vai contra todos os aspetos anteriormente discutidos em vários estudos que vinham sendo desenvolvidos relativamente à realização do canal do metro (em particular o ultimo projeto da Metro Mondego, do arqtº Gonçalo Byrne). A solução agora revelada implica a demolição de nada menos que quatro edifícios, na frente Oeste da Rua da Sofia, que abrirá uma verdadeira “cratera” diante da Caixa Geral de Depósitos. Recordo que os estudos anteriores sempre minimizaram as demolições a efetuar na frente da Rua da Sofia, contemplando apenas o abatimento de um edifício (hoje devoluto) e a sua substituição por um “edifício pórtico” que manteria o alinhamento daquela frente de rua. Esses estudos mostravam que a demolição/substituição do mencionado imóvel era suficiente para a passagem do canal do metro e de uma faixa para veículos de emergência. A nova proposta da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) descaracterizará irremediavelmente a Rua da Sofia, a mais significativa operação urbanística da Coimbra Renascentista. Se isso vier a acontecer, o atual presidente da Câmara e os vereadores, que com ele votaram esta decisão, terão de ser historicamente responsabilizados. Por outro lado, a nova proposta transforma o que era uma passagem dedicada ao metro (e também pedonal) num novo eixo rodoviário que não tem uma justificação funcional evidente e cujo “projeto” se limita a uma planta genérica de vias e pavimentos, sem um mínimo estudo de volumes, de altimetrias e de articulação com as áreas críticas envolventes. Só pode ser risível a informação veiculada pelos jornais de que há “que dar resposta às questões do património da Unesco”, quando a proposta apresentada viola clamorosamente as normas do próprio Regulamento associado à área de proteção do Património Mundial da Alta e Sofia, publicado em Diário da República (2ª série, nº30, 10 de Fevereiro de 2012), desde logo no que se refere ao artigo 1º, alíneas d) e e) referentes à salvaguarda e reabilitação dos conjuntos urbanos e à manuten-ão das características morfológicas e urbanas da área em causa, e alínea h) que limita as demolições a casos extremos (a comprovada impossibilidade de manutenção dos edifícios). Vai também contra o Decreto-Lei 309/2009, que define o regime jurídico das Zonas Especiais de Proteção (ZEP), ao não assumir a elaboração de um Plano de Pormenor de Reabilitação de toda a área envolvente ao canal do Metro (afetada pelas ZEP’s do Mosteiro de Santa Cruz e da Rua da Sofia) com o necessário aval das entidades do Estado, em particular da Direção Geral do Património Cultural. A propósito, que tem a dizer a DGPC sobre este assunto? Qualquer solução aceitável terá de passar pela minimização das demolições na Rua da Sofia e pela elaboração de um projeto urbano de qualidade, suficientemente discutido e desenvolvido, que seja sensível ao contexto particularmente delicado desta intervenção e aos elementos históricos e patrimoniais em causa.

 

 

 

Rui Lobo, professor do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra

(texto publicado no Diário As Beiras, 19 de Março de 2016)

 

 

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One comment

  • Inês Maria Fernandes Alves

    Estão todos loucos, com o progresso sem olhar a meios para atingirem os seus fins ….. só pode!…..
    Eu sou uma filha desta bela cidade cheia de história.
    Sou a favor da evolução, criatividade, mas mantermos as nossas raízes, preservandoas e não destruindo, o que não podemos depois, mostrar aos mais novos.
    Por favor não roubem património, só para mostrarem serviço e sujo…….
    Estamos fartos de tanta asneira.
    Ouçam, consultem, a nossa Universidade de Arquitectura, que teem bons profissionais desejosos de preservar património, mas criar condições dignas a quem vive ou passa por Coimbra.

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