Contra um esventramento insensível

Texto da intervenção de José António Bandeirinha na reunião da Assembleia Municipal de 1 de Março.

O Executivo Municipal aprovou no final do mês de Fevereiro nada mais nada menos que o esventramento dos tecidos urbanos medievais mais sensíveis para realizar aquilo que chama um “projecto”, e que nada mais é senão um projecto, sim, mas um projecto de índole meramente rodoviária, que não tem minimamente que seja em consideração a intervenção sobre uma área urbana que não há muito tempo, e com o trabalho de muita gente, foi considerada “Património Mundial da Humanidade”.

Ora, a intervenção que está proposta neste momento nada mais representa senão um “esventramento” dos tecidos que constituem o desenho ancestral da cidade, frente ao multicentenário Mosteiro de Santa Cruz, ou seja, deixa de se entender o traçado da Rua Direita — a mais antiga saída da cidade para Norte, que foi claramente gerador da malha urbana entre o Mosteiro e a zona portuária (a leste a margem actual do rio).

O projecto que existia antes (encomendado pela Sociedade Metro Mondego ao Arquitecto Gonçalo Byrne) abria um canal dedicado à passagem de um transporte público e era sensível á questão da manutenção dos traçados, ligando com a Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes sim, mas permitindo que o traçado ancestral continuasse legível no nível dos pisos superiores.

O que agora foi aprovado é um esventramento completamente insensível a esse problema.

Se esta proposta agora apresentada representasse uma axialidade austera e monumental, se propusesse edifícios públicos de pendor classicista e materialidade pétrea, seria tão grave quanto o esventramento da Alta nas décadas de 1940 e de 1950. Mas não representa, ou seja, nem sequer isso representa, é abúlico, gratuito e com laivos evidentes de ignorância. É, por isso, muito mais grave que os esventramentos da Alta durante a Ditadura.

Desde há cerca de duas décadas que está internacionalmente consensualizado, no plano das intervenções à escala urbana, um tipo de projectos que inclui um conjunto de articulações de escala entre a infra-estrutura e o edifício, que inclui participação articulada entre a esfera pública e a esfera privada, que inclui efeitos territoriais para além da escala da intervenção, que inclui a superação da monofuncionalidade, que inclui uma componente pública significativa nos investimentos e nos usos colectivos do programa. A esse tipo de intervenções, absolutamente obrigatórias em zonas urbanas sensíveis, tem vindo a ser consignada a designação de Projecto Urbano.

O que foi aprovado no executivo da Câmara Municipal de Coimbra, com os votos contra do Movimento Cidadãos por Coimbra, não configura nenhuma destas características, nem quer sequer saber disso para nada, dificilmente lhe podemos chamar um projecto, a não ser talvez pelo uso e abuso da demolição de edifícios.

O “sonho” da Avenida Central que ligue o coração histórico da Baixa (Mosteiro de Santa Cruz) à Beira Rio, é já uma ideia centenária, completamente datada à luz do estudo da história contemporânea da cidade e do urbanismo. Mas isto que se quer agora fazer não tem sequer essa ambição, falta-lhe entendimento da cidade como um todo, faltam-lhe os modelos de urbanidade e de monumentalidade que, apesar de tudo, existiam há um século atrás. O Senhor Engenheiro Abel Dias Urbano deve estar a dar voltas no túmulo por este gesto gratuito, do qual o mínimo que se pode dizer é que é facilitista e eleitoralista, mas é sobretudo ignorante.

O Movimento Cidadãos por Coimbra fará uma veemente denúncia pública de tudo isto e recorrerá às instâncias (se é que ainda as há) que estiverem ao seu alcance para impedir esta atrocidade, mais este gravíssimo atentado à cidade, à inteligência dos seus cidadãos e à sua memória cultural colectiva.

José António Bandeirinha

Coimbra, 1 de Março de 2016

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