“não há ideias, não há estratégia, não há sequer convicção”

Texto da intervenção de José Reis, líder da bancada do Cidadãos Por Coimbra, na reunião da Assembleia Municipal de 1 de Março de 2016.

Certamente que a CMC está a desenvolver múltiplas atividades. Arranja passeios, altera estacionamentos, muda o sentido de ruas, prepara a conclusão de S. Francisco, estará a acompanhar o processo do Metro Mondego, estará interessada na instalação de novas empresas em Coimbra, preocupa-se com o desemprego, acompanha as cheias e o transbordo do Mondego, envolve-se no programa de acolhimento de refugiados, está a dar resposta às perguntas do tribunal sobre os Jardins do Mondego, projeta uma avenida central como se estivéssemos na década de 20 do século passado… Fará tudo isto e muito mais, em todas e em cada uma rubricas do orçamento e do plano de atividades mas acontece que não sabemos como o faz. Fará tudo isto mas fá-lo desligado da cidade, sem a envolver, sem contar com ela, sem se lhe explicar. Um vazio assustador carateriza o pensamento da liderança municipal. A grande marca da política municipal é secretismo, falta de transparência, autossuficiência, centralização e desconfiança. Quando isto acontece já se sabe por que é: é porque não há ideias, não há estratégia, não há sequer convicção.

Vamos por partes, a alguns assuntos muito concretos.

Metro Mondego. Sabemos onde estamos. Estamos no meio do nada. Há um novo governo e, portanto, um novo interlocutor. Ouviu-se e mobilizou-se a cidade? Articulou-se com os outros municípios? Mobilizou-se a CIM? Deu-se valor a muitos contributos já formulados? Pensa-se em Coimbra como o único grande sistema urbano autónomo fora das áreas metropolitanas que precisa de mobilidade moderna? Ninguém sabe nada sobre o Sistema de Mobilidade do Mondego. E se ninguém sabe nada é porque, muito provavelmente, o Presidente da Câmara também não sabe.

Rio Mondego. Há muito que se diz que é essencial reforçar a ligação da cidade ao rio. Discute-se o que fazer com a sua geografia mais imediata: a das margens e dos muros que as suportam na zona mais central. Promoveu-se discussão? Ouviram-se as vozes de quem tem pensado sobre isto? Não. Sabe-se que há projetos a decorrer mas é como se se estivesse a fazer uma invenção para registar uma patente… Mas a verdade é que o rio é hoje um ponto crítico na cidade, quando devia ser um lugar da transformação do centro e da criação de uma cidade mais moderna e mais rica. Este centro precisa de ser globalmente regenerado e o rio é essencial para isso mas não passa de um problema. E assim continuará se não se mobilizar Coimbra para o debate e para a proposta.

Iparque. Conhece-se a situação de paralisia e as condicionantes administrativas. A Assembleia Geral da empresa está suspensa e a Câmara nem com a Administração fala. Bem ou mal está feito um investimento significativo. Que já acolheu empresas e devia acolher mais. Mas parece que está tolhido e assim se quer que seja. Não pode ser.

S. Francisco. Sabe-se que domina a endogamia e reina a fobia à transparência, à busca pública dos melhores através de ousados concursos públicos, como reclamam os que desejam que este equipamento não seque a vida cultural da cidade que estoicamente foi erguida por muitos e não seja apenas um centro do negócio das convenções de duvidoso êxito. Já sabemos que nunca haverá um concurso público para a sua programação e gestão. Algo que nos qualifique e abra S. Francisco abra à cidade como estrutura culta, democrática e ousada. A razão é simples: esta é uma proposta nossa e da cidade. Por isso a Câmara nem quer ouvi-la.

Também já sabemos que com este executivo nunca haverá Orçamento Participativo – essa experiência tão trivial de democracia participativa em tantos municípios deste país. E não haverá por uma razão simples: porque fomos nós que o propusemos e foi esta Assembleia que o votou! Por isso, só por isso, nunca se fará! E assim se esconde o medo de ouvir organizadamente a população e de lhe devolver um pouco daquilo de que ela é dona: o poder e o poder de decidir…

O movimento Cidadãos por Coimbra avistou-se recentemente como várias entidades de natureza empresarial do município. Encontrámos muitas perplexidades e desconfiança sobre o modo como o poder municipal se relaciona com o tecido empresarial que já se encontra instalado e, sobretudo, como promove Coimbra e os seus parques empresariais junto daqueles que aqui buscam condições para o seu investimento e sobre que contributos quer dar para uma maior e melhor empregabilidade tão necessária no atual contexto nacional.

Pode ser tirada uma conclusão geral de todas as conversas que promovemos. E ela é que a CMC está de costas voltadas para os que aqui já investem ou pretendem investir, numa atitude sobranceira e hostil que é profundamente prejudicial ao nosso desenvolvimento, impondo-se, por isso, que arrepie caminho com urgência.

Num contexto destes, estará Coimbra, o município, as suas instituições, os cidadãos que estas mobilizam e convocam, preparados não apenas para defender bem a posição de Coimbra, num momento tão importante como este em que, depois da miséria da austeridade e da prepotência medíocre do anterior governo, precisamos todos de estar preparados, em Portugal, para recuperar a economia, refazer a sociedade e reorganizar o território? Ficamos chocados com estudos que mostram a dura realidade económica que asfixia Coimbra e a sua região. Mas acaso temos a noção que aqui, com a força de democracia e com a capacidade que cabe às cidades e aos seus eleitos, estamos a contrariar isso? Ou estamos todos com a sensação amarga de que o próprio município legitima e se ajusta ao quadro depressivo? Nós achamos que Coimbra não está preparada e que as suas instituições estão enfraquecidas e a democracia local é de baixa qualidade. Isso só pode comprometer o nosso futuro.

O que é mais dramático não é diagnóstico que aqui estive a fazer em nome do movimento Cidadãos por Coimbra – o que é verdadeiramente dramático é que todos conhecemos e antecipamos a resposta do poder municipal a estas questões. Será sempre uma resposta baseada no desdém, na sobranceria, no sabe-tudo-mas-não-diz-nada. Quer dizer, é uma resposta fraca, no significado mais literal da palavra. Temos que mudar isto.

Assembleia Municipal, 1 de março de 2016

José Reis

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