Leonor Barata: “A bienal ANOZERO existe porque o diálogo se fez e as pontes se construíram.”

Texto da intervenção de Leonor Barata, na Assembleia Municipal de Coimbra.

Temos a arte para não morrer de verdade, dizia Nietzsche e nos dias que correm esta frase não me sai da cabeça como um sublinhado constante à realidade que vemos e sentimos. Uma realidade que nos questiona e nos magoa e que obrigará a uma reflexão profunda e a um exercício delicado de não combater ódio com ódio nem alinhar em discursos a preto e branco.

A França chora as suas vítimas, nós choramos com eles e estamos solidários. Estamos também solidários com todas as outras vitimas inocentes de uma guerra global e que passam apenas nos rodapés televisivos.

A França chora e enquanto Le Pen atiça o ódio e identifica refugiados com terroristas e propõe a regra de olho por olho, um pianista toca Imagine de Lennon numa praça parisiense:

Imaginem que não havia nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E também nenhuma religião
Imaginem todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

É este o poder da arte, criar outras realidades, estabelecer novos sentidos, estabelecer novas linguagens e construir mais pontes.

É este o poder da arte: destrói para construir, para criar outra vida, na definição de Cabrita Reis, autor ímpar do panorama cultural e presente na programação da bienal ANOZERO.

É também isto que fez, ou está a fazer a bienal ANOZERO, ocupando o espaço da nossa cidade com intervenções de mais de 40 artistas, num mês inteiro de ações, exposições, conversas concertos e diversas atividades que colocam Coimbra no centro, onde sempre deveria estar, e a constroem como ponto de referência nacional e internacional na promoção da arte contemporânea.

A bienal ANOZERO existe porque o diálogo se fez e as pontes se construíram.

A bienal ANOZERO existe porque o Círculo de Artes Plásticas lançou um som que produziu um eco, obteve resposta.

E é disto que Coimbra é capaz: mobilizar em torno de um mesmo projeto diversas instituições e artistas e parceiros.

Aqui ganhamos todos e felicito por isso a Câmara de Coimbra, A Universidade, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Direção Geral das Artes e felicito em particular os três curadores: Carlos Antunes, Luís Quintais e Pedro Pousada, que nos mostram ser possível um novo olhar sobre a mesma cidade, que nos mostram que somos capazes de estar a altura de construir novas histórias sobre as antigas. Criar novo património. Ficámos assim, finalmente, saber que a classificação da UNESCO pode ter em Coimbra desenvolvimentos capazes, qualificados e cosmopolitas. Já era tempo de a nossa insatisfação pelo que vimos até agora ter uma resposta. Oxalá não se perca o sentido que aqui fica criado e o caminho que fica aberto.

Neste lançar de novo os dados o que se pretende é o diálogo constante da cidade e dos seus cidadãos com essa outra dimensão eterna e patrimonial, que a cidade viva de forma leve e simultaneamente comprometida o seu património, para que seja capaz de pensar novos caminhos e possibilidades e apresentar novas respostas à realidade.

As cidades têm que ser o que vão ser e não apenas o que foram e isso a bienal coloca em cena e mostra-nos que o importante perante o mundo é a nossa condição de cidadãos que fazem acontecer e não desistem de transformar a realidade.

Temos a arte para não morrer de verdade e esta bienal (a zero de muitas) é um contributo para que Coimbra mude, alargue a sua visão e o seu horizonte e se afirme como cidade de futuro.

O pior, em Coimbra, é que estas manifestações de vida são pontuais, porventura erráticas, visto que predomina uma lei de ferro de enorme sobranceria relativamente aos agentes culturais e à sua ação quotidiana. A Câmara parece sempre guiada pelo desejo de os colocar em situação de dependência, em vez de fazer deles o elemento central da vida cultural da cidade. O orçamento que aqui vamos hoje discutir é exemplo disso mesmo, agora com a novidade de os recursos serem centrados em S. Francisco, o mais opaco e desconhecido dos projetos, concentrado na própria Câmara e nos seus nomeados, da forma que se sabe. A nossa posição é a de sempre: queremos ver uma cidade em que a cultura se faça de forma livre, autónoma, cosmopolita, com todas as capacidades das instituições que a desenvolvem e lhe dão força. Elogiamos, pois, tudo o que, neste sentido se realize – e a Bienal passa a ser um exemplo notável disto mesmo – não calamos a nossa insatisfação por esta não ser norma, mas apenas a exceção.

Leonor Barata, 2015
Cidadãos por Coimbra

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3 comentários

  • Francisco Soares de Oliveira

    Boa noite. Lamento imenso mas considero este paralelismo da bienal ano zero com os atentados de Paris absolutamente patético. Francisco

  • A ideia não era fazer um paralelismo entre um acontecimento e outro mas apresentar o poder transformador da arte e da criação artística na dinâmica das cidades e da vida dos cidadãos.
    O texto é sobre a bienal. Paris está no início porque era impossível ficar calada perante o horror.
    Leonor Barata

  • Boa noite.
    Antes de mais, gostaria que a coordenação do Movimento Cidadãos Por Coimbra me indicasse quando, onde e por quem foi proposto e deliberado um apoio formal à Bienal Ano Zero de Coimbra, dado que sobre tal matéria nada encontrei nas comunicações via e-mail que recebo assiduamente do Movimento Cidadãos Por Coimbra.
    Quanto à questão em si, vou, então, dado que tal é, pelos vistos, necessário, explicitar o mais do que evidente paralelismo: “A França chora…” (2º parágrafo), “A França chora…” (3º parágrafo), “É este o poder da arte…” (5º parágrafo), “É este o poder da arte…” (6º parágrafo) + “É também isto que fez, ou está a fazer a bienal ANOZERO” = paralelismo. Para além de, repito, patético, é, mais do que isso, de mau gosto já que faz lembrar o triste paralelismo que Karlheinz Stockhausen fez com os atentados do 11 de Setembro ao considerá-los “a maior obra de arte alguma vez feita”. Lamentável.

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