“Está suja, senhores.”

Texto de opinião de Isabel Campante, do movimento cívico Cidadãos por Coimbra, publicado no Diário As Beiras de dia 29 de Agosto.

 

No final de Julho escrevi que estava farta desta cidade “encardida, suja, triste e feia”. Responderam-me (e eu agradeci): “vai de férias, rapariga”. Durante essas férias li as notícias de uma auditoria solicitada pela Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC) que concluiu que “há escassez de estacionamento, poucos caixotes do lixo e ecopontos e necessidade de intervenção em espaços degradados nesta zona da cidade”. Regressei de férias e li a notícia da desconfiança manifestada pelo vereador Carlos Cidade em relação à qualidade do serviço da nova contratação para a limpeza da cidade… Pode ser pior, perguntamo-nos?
As ruas da Baixa (e não só…) estão sempre sujas, o lixo é recolhido em horários inadequados e até a recente colocação de papeleiras está mal definida e pior executada. Os poucos espaços verdes não são cuidados – já olharam para os canteiros da Portagem? São quintais abandonados, senhores. Não há locais acolhedores para os idosos e não há um pensamento para a Baixa ser simpática para os mais novos. A área circundante de um dos principais equipamentos municipais para a cultura, o Teatro da Cerca de São Bernardo, é limpa quando o protocolo a isso obriga. E nem os espaços religiosos são respeitados: à frente de uma igreja está montada uma permanente venda ambulante, na parede do lado de trás sobrevivem pichagens quase rupestres, que ainda não percebi se não são limpas por medo de estarem em espaço sagrado, tão sagrado quanto aquelas estruturas que funcionam como memória de uns quiosques multimédia – que devem ser outros compromissos sagrados.
Os SMTUC tanto plantam paragens cogumelo (mas sem aba de proteção), como largam os passageiros no meio da estrada, o que se passa por exemplo na mesma avenida onde uma clínica privada utiliza a faixa de rodagem como vários pontos de estacionamento. E se, neste caso, a instituição não tem a consideração que devia ter pelos seus utentes e os coloca a percorrer indignamente o caminho até ali chegar, não seria suficiente abolir o estacionamento quase privado que ali se mantém para quem ali… trabalha? Mas continuemos pelas ruas mais estreitas: a iluminação é gentilmente pensada de modo a esconder a ruína, enquanto aumenta o ruinoso estado de sítio e o preconceito de que a Baixa não é segura. Mas mesmo assim, não se consegue tapar uma improvisada esplanada que envergonha uma festa de fim de semana numa praia não vigiada; uma esplanada que surgiu onde existia um edifício que derrocou, lembram-se? Sim, na Portagem, que nos conduz até uma Avenida Emídio Navarro que nos recorda que a natureza é violenta, mas o descuido é fatal.
A falta de qualidade do espaço público em Coimbra é particularmente acentuada no seu centro, como que a dizer-nos: “olhem que vai alastrar…” E nós não podemos fazer nada? Se calhar, podíamos propor que a Câmara Municipal fosse instalada na Baixa de Coimbra e, nessa altura, talvez os responsáveis pudessem ver como tudo está.
Em suma: devo necessitar de mais férias.

Coimbra, 20 de Agosto de 2015.

 

 

 

20150829 Beiras opiniao

 

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