As Cidades e a Ambição – uma ambição para Coimbra

Texto da intervenção de José Reis, em nome do movimento cívico Cidadãos Por Coimbra, na cerimónia oficial da comemoração do feriado municipal de 4 de Julho.

As cidades, já o disseram muitos, são seguramente uma das grandes invenções e construções humanas. Como tudo na humanidade, as cidades têm ciclos de vida. Por isso há as que morrem. E as que se recriam. E as que são manifestações exuberantes de capacidades ou as que são expressões difíceis de fragilidades e problemas. Há as que representam grandes capacidades de concertação, consenso e convergência das suas gentes e há as que se governam de forma distante, amorfa ou autoritária. Ou as que em lugar da controvérsia própria dos coletivos saudáveis, desenvolvem o conflito como norma.

Seja como for, há traços indiscutíveis e incontornáveis de uma cidade: a aglomeração de “muitas e desvairadas gentes”, a procura de segurança, de bem estar, de conhecimento, de cultura, a busca intensa da fronteira, isto é, da linha mais à frente, que distingue tudo o que já possamos ter daquilo que ambicionamos alcançar. É este o lugar da cidade, o da coesão e da procura.

E há um ponto decisivo: somos de uma cidade na medida em que através dela nos liguemos a uma ambição. Algumas cidades têm apenas a ambição do passado. É pouco, indiscutivelmente pouco. Não que se deva desvalorizar tal passado. Como há poucos dias aqui dizia o meu colega de bancada José António Bandeirinha, era grande a “urbanidade que Coimbra possuía ainda há poucas décadas atrás, que inclusivamente a projetava além-fronteiras”. Faz sentido, de facto, que tomemos em conta o nosso passado. Mas para uma finalidade essencial: nivelar o presente e o futuro por cima, muito por cima desse passado. Nunca para nivelar por baixo.

Ora, um dia da cidade como o que hoje assinalamos só pode servir para proclamarmos a nossa ambição para Coimbra. Ambição é, em primeiro lugar, não conformismo, inquietação. E há de ser igualmente não nos limitarmos a deslumbramentos com as pequenas coisas, transformando-as em finalidades ou objetivos quando são meros pontos circunstanciais. Ambição é uma cidade mobilizada, dotada de boa governação e estratégia, coesa nas sua vida cultural, económica, política e institucional.

A ambição em Coimbra, a ambição de uma cidade ativa, respeitada, ousadamente capaz de se fazer e refazer a si própria tem nome, dá por vários nomes. É uma governação democrática, que explique, concerte e beneficie de todas as instituições da cidade e de todas as suas forças e deixe claro que há uma estratégia clara e bem construída. É uma realidade urbana permanentemente cuidada e revalorizada, com um centro revitalizado, repovoado. É uma ação clara e forte pelo projeto estrutural para a vida urbana que é o Metro Mondego. É o Orçamento Participativo, decisão da Assembleia Municipal, respeitado e vivamente concretizado. É um ambiente cultural acarinhado e parte viva e dinâmica de um projeto para o Convento de S. Francisco que engrandeça a cidade no seu conjunto, sem lhe pesar como corpo estranho, que ninguém conheça ou entenda, como coisa vazia disponível para tudo e para nada… Ambição é uma vida económica, industrial ou de serviços qualificados, que preencha inovadoramente os antigos equipamentos industriais da zona norte não fazendo deles buracos esventrados. É saber que a cidade se faz também dessa maneira e não no meio de pinhais onde imperam lógicas fundiárias, semelhantes às que desertificam tantas partes da cidade já feita, a começar pelo centro, criando periferias descuidadas. É também perguntarmo-nos todos os dias se estamos a honrar e a aumentar ou, pelo contrário, a desbaratar, o que alcançámos e nos foi concedido com a qualidade de Património da Humanidade. Se olhamos isso como espelho do passado ou como coisa risonha, à medida do que somos capazes de fazer hoje. É ainda saber como somos ouvidos pelos vizinhos que nos são próximos e que, connosco, fazem a única grande realidade urbana não metropolitana de perto de meio milhão de pessoas, tão indispensável a uma organização territorial do país digna e equilibrada. É, afinal, saber se temos voz e respeito no país.

A ambição de Coimbra tem pois nome, muitos nomes, e não lhe faltará sentido. É essa ambição que é necessário repetir a cada momento, como estou aqui a fazer representando o movimento Cidadãos por Coimbra e convocando todos para que a assumamos em conjunto. Sendo certo que uma boa ambição nunca se realiza, também é verdade que precisamos de saber, a cada momento, quão longe ou quão perto estamos da sua concretização razoável.

É isso, pois, que convido que se faça. Que todos e cada um, nos devidos momentos, tiremos a medida exata à ambição de Coimbra e saibamos responder se é satisfatório o resultado a que chegámos. Talvez assim ainda obtenhamos outro resultado que é o de saber se somos afinal portadores de uma ambição, se nunca trilhámos esse caminho ou se já nos perdemos. Aceito o meu próprio método e, por isso, não dou aqui a resposta às sugestões que tenho estado a fazer. Direi no entanto que, na Assembleia Municipal, o mandato dado aos Cidadãos por Coimbra por alguns daqueles que, inquietos e desejosos de inovação na nossa vida pública, desde há muito nos foram ensinado com se concretizam ambições – esse mandato tem sido cumprido e continuará a sê-lo norteando-nos pelo que aqui quis ilustrar. É esta a forma de celebrarmos todos os 4 de julho que neste sentido preciso deveriam ocupar o calendário do ano inteiro. É por essa razão, aliás, que estimamos que, no dia da cidade, nos convoquemos, como o fez o Presidente da Assembleia Municipal, para aqui estarmos em nome da cidade, celebrando a sua condição e lembrando-nos de como a nossa é parte dessa grande invenção da humanidade, sabendo que temos em mão recriá-la, refazê-la, nunca a desbaratando.

Tenho a felicidade de poder fazer uma exceção ao que acabo de dizer e dar já uma resposta precisa a uma das perguntas que podemos fazer sobre Coimbra. Vamos entregar à nossa Universidade a medalha de ouro da cidade. Pelos seus 725 anos? Certamente. Mas mais ainda porque sabemos que ela é portadora de 725 anos de futuro. Sim, eu acho que a universidade que se inquieta democraticamente e ousa sempre a democracia, que se concerta estrategicamente, que se dota da liberdade que é inerente ao conhecimento e à ciência, que usa a língua portuguesa com o símbolo de que somos nós todos, e o país, que a constituímos – esta Universidade é parte segura do nosso futuro. E é uma boa medida da nossa ambição. É fazer uma homenagem, eu sei, mas parece-me que podemos ter a certeza que a Universidade é um sinal preciso da cidade democrática e capaz que queremos. Certamente que me perdoarão pelo secreto orgulho que sinto em, como universitário, estar aqui a testemunhar como portador de um mandato do povo o elogio e reconhecimento que fazemos à minha, à nossa universidade…

4 de julho de 2015. José Reis, em nome de Cidadãos por Coimbra

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