ou de como não aproveitar uma Coimbra moderna, acolhedora e estimulante

A opinião de Isabel Campante sobre as palavras do presidente da Câmara Municipal de Coimbra no texto ”Uma aposta renovada na cultura e criatividade”, apresentação da Feira Cultural de Coimbra de 2015

Nada tenho contra o misturar de feiras do Artesanato e do Livro. Ganha-se em diversidade, folguedo, foguetório, conversetas. Juntem-se, pois, o artesanato e o livro, a pintura, a escultura, a fotografia, o teatro, a dança e a música, mais a gastronomia e as “representações institucionais”. Pouco importa que não se separe bem o que é a mostra gratuita e a contratação, o espaço publicitário e a caridade, o tempo religioso e o institucional, os workshops culturais e as acções de empreendedorismo, a generosidade e o despudor. São muitos os exemplos para os nove dias: haverá a atribuição de medalha ao poeta Manuel Alegre e a homenagem ao leproso Basílio. Anunciam-se muitos dj’s sem dizer quais mas com hora e designação do evento. Multiplicam-se actuações de vários grupos de teatro escolar. E há até tempo de escultura ao vivo e uma senhora que faz de estátua e de palhaço, que canta e certamente encanta. Dá-se um espaço para cambalhotas organizadas por ginásios profissionais e outro para meditação com associações esotéricas. Recria-se, mas só uma vez, porque o ano é ímpar, o Milagre das Rosas. Escolhem-se uns livros aos quais se dá mais pompa. E basta a Fila K estar a passar filmes da meia noite em diante para se anunciar, como se fosse o mesmo que faz Serralves, um non-stop “24 Horas Culturais”. Sem esquecer os grandes concertos de “vários artistas e criadores de relevo no panorama nacional”, como a nossa Brigada Vitor Jara; a conimbricense Inês Santos; o Pedro Tochas, que é de Avelar mas também estudou em Coimbra; e o Vitorino, que é de toda a parte. Só faltam mesmo uns trapezistas, barracas de tiro, lavadeiras a fazerem a barrela no Mondego, espetáculos de pulgas amestradas, umas tricanas trajadas a rigor e uma feira de atrocidades. Isto, meus senhores, até pode ser “um maior investimento em programação cultural” feito pela autarquia. Mas não é programação nenhuma. É apenas um amontoar de roupa branca…

Nada contra a mostra da ​roupa branca, tudo contra ​d​epois de tanta conversa que o Convento de São Francisco é maior do que a cidade, a região, o país… darem-nos uma aldeia e dizerem que esta é “u​ma forma renovada de encarar a programação, a promoção e o consumo cultural no nosso Município”.​

E lá continuamos com a “Coimbra moderna, acolhedora e estimulante” deles. Moderna nas recriações, acolhedora de​ workshop’​s​ de gin e estimulante de aulas de zumba.

Nada contra as propostas apresentadas, tudo contra esquecer que o ano passado se comparava a novíssima “Feira Cultural” ao que se passava em São Paulo, Madrid, Londres ou Miami e este ano nem uma comparação a uma cidadezinha ou uma aldeia, talvez porque sabem que podíamos perder…

Tudo contra escrever que se celebra “uma Coimbra moderna, acolhedora e estimulante”. Coimbra não “é uma cidade melhor” com esta autarquia.

feiracultural

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