“Viva o 25 de Abril de 1974!”

José António Bandeirinha (deputado municipal do CPC na AMC) representou-nos nas cerimónias oficiais da CMC dos 41 anos do 25 de Abril.

Exº Senhor Presidente da Assembleia Municipal de Coimbra

Exº. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Coimbra

Senhoras e Senhores Deputados Municipais

Senhoras e Senhores Vereadores do Município de Coimbra

Senhoras e Senhores Jornalistas

Minhas Senhoras e meus Senhores

Estamos hoje aqui reunidos, nesta sessão nobre, para comemorar o 25 de Abril. Não é obrigatório comemorar o 25 de Abril, assim como não é obrigatório comemorar a Páscoa, o 10 de Junho, a Rainha Santa ou o 5 de Outubro. Se, porém, se decide comemorar e se essa decisão tem um fundamento e um rosto público, tem necessariamente de estar associada a um patamar de dignidade muito alto.

O 25 de Abril tem razões de celebração substancialmente diferentes para cada um de nós, tem também algo de comum, que é exactamente aquilo que hoje aqui nos une.

Pela parte que me diz respeito, seja a título pessoal (que muito me apraz) seja em representação do Movimento Cidadãos por Coimbra, quero aqui evocar um universo de oportunidades abertas há precisamente quarenta e um anos, oportunidades para a nossa vida social e colectiva, sem dúvida, mas também incontáveis oportunidades para a nossa vida individual. Quero sobretudo evocar a dimensão do universo cultural que a abertura dessas oportunidades proporcionou à sociedade portuguesa.

Quinta feira, 25 de Abril de 1974, o golpe militar que irrompeu com uma determinação inabalável põe termo a quarenta e oito anos de regime autoritário e ditatorial. Da disputa pelo poder que se lhe seguiu não são dissociáveis duas ordens de circunstâncias paralelas.

Por um lado, o jogo das instâncias e das influências, das facções políticas, da maior ou menor capacidade para aproveitar a súbita dádiva libertadora e forjar objectivos programáticos abrangentes. No próprio dia 25 de Abril, assim que o comando que assegurava a coordenação das operações, sediado no Quartel da Pontinha, constatou o êxito das linhas essenciais do plano proposto, começaram de pronto a delinear-se os contornos e a aflorar os primeiros meandros desse frenesim político-ideológico.

Por outro lado, e simultaneamente, foi crescendo nas ruas, nas praças, nos cafés, nos locais de trabalho, uma forma de estar social nova, foi-se consolidando a súbita consciencialização de mais liberdades, de mais direitos, da urgência de ter expressão, de ter voz, foi-se forjando a capacidade de reivindicar a igualdade, de clamar pela dignificação do trabalho, por melhores condições de vida, foi-se abrindo a possibilidade de estabelecer sínteses entre campos de acção sociais, económicos e culturais até aí completamente estanques. Desde os primeiros momentos, também, a população saíu à rua e deu o sinal dessa determinação. No próprio dia 25 de Abril, foi a multidão que enchia as ruas de Lisboa que impediu as forças governamentais de enfrentar os homens de Salgueiro Maia, quando estes já sitiavam o Quartel do Carmo.

No dia 26 de Abril, as manifestações estrondosamente participadas que tiveram lugar nas principais cidades (e em Coimbra, talvez uma das maiores de sempre) afirmaram categoricamente o início desse processo. Depois, a euforia do primeiro 1º. de Maio afastou as dúvidas dos mais cépticos e deu a entender, desde cedo, que tudo o que se viesse a passar em seguida teria forçosamente de contar com a explosão colectiva de um desejo recalcado de participação e de mudança. Glosando os peçonhentos temores de Marcello Caetano antes de se retirar, não foi o poder que caíu na rua, foi a argumentação e o debate, a actividade cultural e artística, o grito de revolta, os sentimentos mais variados, a alegria e a tristeza, foi a própria vida que conquistou o direito à rua e se transmitiu de praça em praça, de bairro em bairro, até à exorcização dos medos e à instalação de uma aura de liberdade generalizada que, enquanto perdurou, não teve paralelo no mundo seu contemporâneo.

Perceber os processos de evolução social e política desencadeados pelo 25 de Abril é, também, perceber o sentido da contaminação dialéctica que estas duas ordens de circunstâncias estabeleceram entre si, as suas contradições e os seus pontos de consonância, os momentos em que cada uma delas estimulou, ou reprimiu, as acções da outra, o modo como, em determinados momentos, se pareciam interpenetrar e dissolver, gerando expectativas e consensos e, noutros períodos, se opunham, gerando antagonismos e confrontos.

Para quem teve a felicidade de ter vivido esses tempos, basta recorrer à memória, para quem a não teve, basta analisar uma das muitas cronologias históricas do processo revolucionário para se perceber a intensidade de acontecimentos desse tempo. Contam-se aos milhares os momentos dignos de registo histórico, as movimentações eram quotidianas.

Ao longo de dois anos, entre 1974 e 1976, todos os dias houve vários acontecimentos simultâneos, em vários lugares, praticamente todas as horas houve movimentações sociais, manifestações, assembleias, acções de protesto, festas, espectáculos e acções culturais. O tempo era realmente outro.

O 25 de Abril desencadeou, com uma precisão cronológica irrefutável, a consciência de um antes e um depois nos contextos social, cultural e económico de toda a sociedade portuguesa. Mas naquele momento preciso, havia um antes, não havia um depois. O depois conquistava-se dia a dia, hora a hora, na plenitude da tensão da coisa pública e da novidade que era a discussão e a expressão colectiva.

Subitamente, portanto, a ponta ocidental da Europa, o pequeno país ibérico cujo potencial de orgulho se limitava à condição de cenário para algumas manifestações culturais do neo-realismo tardio, esse pequeno país passou a ocupar um espaço mediático central em toda a Europa e mesmo no Mundo. Passou para as primeiras páginas dos jornais e era um gosto vê-lo a desfilar, ufano, nos painéis luminosos que ocupavam as fachadas das sedes dos principais jornais do mundo.

Viver o 25 de Abril passou então a ser, para muitos de nós, uma condição essencial da vivência do quotidiano, e talvez por isso mesmo nos preocupam as suas comemorações.

E a verdade é que as comemorações institucionais do 25 de Abril foram quase sempre encaradas de um modo artificial, ora demasiado formais, com pompa e protocolo, ora demasiado populistas, do género p’ra quem é bacalhau basta, à boa maneira dos horários nobres das TVs, como se todos nós, os que gostamos realmente de celebrar o significado da data, estivéssemos já empedernidos, usássemos ainda um visual nostálgico dos anos setenta, poupa, patilha, bigode e boca-de-sino, e passássemos o tempo a ouvir repetidamente no I Tunes a gaivota que voava, voava.

Firmemente ancorado ao significado político, está o significado histórico e cultural da efeméride. A julgar pelo modo como o celebramos, parece-me evidente que é demasiado frágil e que, na maior parte das vezes, essa fragilidade se torna também demasiado cómoda para os poderes instalados. Vejamos a televisão, os noticiários enchem-se de velhas vozes, algumas delas verdadeiros monumentos vivos da Resistência. A pivot que as entrevista abre os olhos num esgar estereotipado, arreganha a boca e diz-lhes que os jovens — coitados — já não sabem o que foi o 25 de Abril. Saberá ela, perguntamos nós, o que muitos jovens comemoram, intensa e inconfessadamente, no fulgor das suas vivências quotidianas? Como podem as gerações posteriores perceber o que quer que seja dos acontecimentos quando nós, que tínhamos obrigação de os trazer à luz do conhecimento, os utilizamos displicentemente como celebração, balofa e acomodada, da nossa própria incapacidade de evoluir?

É um lugar comum dizer-se que o 25 de Abril foi a condição matricial de muitos direitos inalienáveis que se conquistaram, que se obtiveram. Mesmo que quiséssemos, não as conseguiríamos enumerar aqui, porque são incontáveis e têm um significado aberto, um desígnio que se enquadra sempre na mais insignificante das idiossincrasias. Não, não as podemos elencar assim, de ânimo leve, até porque há muitas que se fragilizaram já ao ponto de dissolução, porque há muitas ameaçadas e outras até já temporariamente perdidas.

Mas há uma que importa de sobremaneira evocar aqui e agora, há uma que, independentemente de todas as nossas diferenças culturais e políticas, não podemos deixar de homenagear todos em uníssono aqui neste momento.

Podemos pensar em Poder Local sem pensar em Abril? Não, meus Senhores e minhas Senhoras, o Poder Local é, sem dúvida nenhuma, uma das grandes conquistas do 25 de Abril.

É precisamente para honrar ambos que estamos hoje aqui reunidos.

Viva o 25 de Abril de 1974!

Paços do Concelho do Município de Coimbra, 25 de Abril de 2015

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