Intervenção de José António Bandeirinha na Assembleia Municipal

Um ministro que insulta Coimbra e uma maioria camarária que se cala e consente foi o tema da a intervenção de José António Bandeirinha, deputado municipal dos Cidadãos por Coimbra na Assembleia Municipal a propósito do Metro Mondego.

Texto integral da sua intervenção:

O Senhor Ministro Adjunto e do auto-designado Desenvolvimento Regional afirmou há cerca de duas semanas em Miranda do Corvo que a solução do Eléctrico Rápido, ou Metro Ligeiro de Superfície é boa demais para Coimbra. A União Europeia nunca iria aceitar co-financiar uma obra estruturante para uma cidade e para uma região tão despeitada e ostracizada pelos seus governantes. Preconiza o Senhor Ministro Adjunto “uma solução alternativa”, nela esperamos todos estar incluída uma pista de Jogging onde há alguns anos estavam carris e chulipas, onde estava uma infra-estutura ferroviária digna, que podia e devia ser potenciada e adaptada tecnicamente às necessidades dos tempos que correm.

Não é de admirar, o Senhor Ministro Adjunto faz parte de uma casta política que bem conhecemos, dos que não precisam sequer de dizer que detestam Coimbra para demonstrar quanto dela escarnecem, quanto a despeitam. É uma casta que tem um timbre geracional, sem dúvida, e que grassa abundantemente nos partidos do chamado arco do poder.

Pois eu também me permito escarnecer e despeitar de igual modo a casta e a geração de “políticos pretensamente iluminados”, Senhor Ministro Adjunto. Permito-me escarnecer do seu desprezo por esta terra. Mais, posso até, como Almada, permitir-me afirmar que se o Senhor Ministro Adjunto é português, eu quero ser espanhol. Mas não o farei, não precisarei de o fazer, porque quem despreza de tal modo pre-conceituadamente esta terra, também despreza todo o seu significado histórico e cultural. E esse significado, senhor Ministro Adjunto, esse é matricialmente português.

O espanhol é, portanto, o Senhor, que me perdoem os melhores de entre os meus conterrâneos ibéricos.

Já sabemos, Senhor Ministro Adjunto, que aqui em Coimbra não temos direito a nada que se revista do mínimo de dignidade, disse-no-lo há pouco tempo o seu governo quando engendrou aquela vergonhosa saída para o IC 3, o pobre e único itinerário do Plano Rodoviário Nacional que tem a desdita de ter esta cidade como destino.

Vem agora o Senhor lembrar-nos outra vez que não temos direito a nada. Que talvez, quem sabe, possa despender algum (muito pouco) do seu tempo a engendrar uma “alternativa” para o ramal da Lousã, também ela seguramente vexadora e atentatória da dignidade dos cidadãos que ainda aqui habitam, por enquanto. A sensação que temos é, Senhor Ministro, “para aquela gente, qualquer porcaria serve, só temos de os calar, e é consideravelmente fácil…”

Mas independentemente do já habitual, mas sempre humilhante, arrazoado verborreico dos senhores do poder central, a questão que aqui venho colocar — e agora dirigindo-me a V. Exª., Senhor Presidente da Câmara Municipal de Coimbra — é:

— Como é que este Município vai reagir a mais este vexame?

— Como vamos nós proceder?

Hipótese um — calarmo-nos muito bem caladinhos, esperar pela tal “alternativa” milagreira do Senhor Ministro Adjunto e tentar resgatar um punhado de pequeninos “benefícios” políticos, no meio do prejuízo geral;

Hipótese dois — não nos calarmos e exigirmos até à exaustão e, de preferência, nas instâncias transnacionais, a reposição total dos bens colectivos dos quais fomos espoliados.

Não sei bem explicar porquê, Senhor Presidente, mas inclino-me para que a opção seja a Hipótese um, ou por outra, muito me admiraria que não fosse a Hipótese um.

E nesse caso, e para terminar, há uma outra solução acerca da qual me pronunciarei. Trata-se de um espaço aqui bem perto, as demolições massivas perpetradas junto à Rua Direita, mais precisamente entre a Avenida Fernão de Magalhães e a Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes.

Vamos rapidamente ao ponto onde tudo começou. Há cerca de treze anos, quando se começou a conhecer o traçado do eléctrico rápido proposto para Coimbra, percebeu-se a necessidade de passar aquela estrutura de transporte colectivo por um canal dedicado, entre o Bota Abaixo e a referida Rua Olímpio Fernandes.

Duas razões de peso assistiam essa necessidade:

1. a constatação de que o chamado traçado central, que entra no centro da cidade e termina no Hospital da Universidade, era absolutamente imprescindível para a sustentabilidade da rede;

2. a perda de velocidade comercial e consequente desinteresse para a exploração se esse traçado central fosse dar as voltas habituais dos automóveis e dos autocarros, Arnado, Rua da Sofia, etc.

Mas, ainda mais importante que isso, a este desígnio dos cidadãos de Coimbra corresponde uma iniciativa que representa, à uma, o único objectivo urbano verdadeiramente estratégico que se perfila no horizonte, com real capacidade de influência directa na qualidade de vida, e um dos maiores, senão o maior, investimento público de sempre no espaço urbano da cidade.

Acabar com essa possibilidade não representa uma mera manobra de “desvio” de verbas públicas, agora que tanta falta fazem, significa, acima de tudo, atentar contra uma aspiração dos cidadãos, talvez a única que, de um modo amplo e abrangente, radica no desejo de uma cidade verdadeiramente mais viva e vivida, simultaneamente mais saudável e mais movimentada, a única aspiração que detém a possibilidade de equilibrar áreas urbanas em acelerada decadência — sobretudo a Baixa. “Acabar” com esta possibilidade terá consequências tão graves e nefastas para a cidade de Coimbra que só à História competirá julgá-las.

Estas demolições, embora atabalhoadamente, foram feitas em prol de um interesse público, de uma infra-estrutura de transportes colectivos verdadeiramente estruturante para a cidade.

A malha daquela zona tem séculos de evolução urbana, tinha um traçado marcante, estruturado pela preponderância dominante do Mosteiro de Santa Cruz, delineado pela presença da antiga judiaria e vincado por antinomia com o traçado humanista da Rua da Sofia, Não se pode ostentar o epíteto de Património Mundial e andar a brincar às demolições gratuitas, só para agradar à sanha retaliadora de um qualquer ministro de um qualquer governo.

Se essa infra-estrutura não for feita, se a tal Hipótese um for para a frente, Senhor Presidente, o que há a fazer, a única solução possível, é repor tudo como estava antes. Mas não é a tão propalada “reabilitação”, não.

É restauro puro e duro, à maneira de Veneza, ou à maneira dos tempos áureos da gestão comunista de Bolonha no Pós Guerra. É pôr tudo exactamente como estava antes.

Mais, esta é sem dúvida a única saída possível do ponto de vista ético, mas penso que é também a única possível do ponto de vista jurídico, uma vez que as propriedades foram expropriadas para uso colectivo, para uma infra-estrutura de transportes. Não o foram para se fazer uma Avenida Central.

Repor tudo como estava antes, esta é a exigência que faço, é a única saída digna para todo este vexame, é a única possibilidade de não nos sentirmos totalmente humilhados.

E com duas perguntas termino, Senhor Presidente:

primeiro, o que pensa fazer em relação a mais este vexame?

Segundo, se, como parece ser a sua intenção, vai desistir definitivamente da linha central da rede de eléctrico rápido — a chamada Linha do Hospital — vai optar por construir um estradão suburbano para a passagem de automóveis, à maneira de meados do Século XX?

Somos nós quem lhe formula as perguntas, Senhor Presidente, embora creia que há um conjunto considerável de cidadãos eleitores que estão ansiosos por conhecer as suas respostas.

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