contrariar “a desidentificação da cidade com o rio”

No âmbito do projeto Coimbra 2030, o movimento cívico Cidadãos Por Coimbra (CPC) promoveu mais uma sessão, desta vez tendo como tema “A cidade e o rio: HO ou a margem da alegria”.

A iniciativa, moderada pelo sociólogo João Paulo Dias, decorreu a bordo do “Basófias” e contou com a presença de Helena Freitas, Carlos Fortuna, Fernanda Delgado Cravidão e Pedro Bingre do Amaral.

A bióloga e vice-reitora da UC, Helena Freitas, foi a primeira a intervir. Referiu que o rio é um sistema dinâmico artificializado e que, por isso, necessita de monitorização, algo que tem faltado. Deu como exemplos disso o crescente assoreamento do seu leito (“qualquer dia nem a função desportiva permite”) e, em especial, aquilo que considera ser um problema gravíssimo e de extrema urgência: a existência de vários desníveis nos muros das margens, que estão em sério risco de colapsar. Destaque-se ainda da sua intervenção o apelo veemente a uma atitude ativa por parte do município na gestão do rio.

Seguiu-se o sociólogo Carlos Fortuna. Depois de afirmar que o Mondego é, em Coimbra, um elemento da nossa identidade, considerou assistir-se a “uma desidentificação da cidade com o rio”. Em sua opinião, é necessário “destradicionalizar a tradição”, apostando na criatividade e na inovação. Defendeu que a reativação da relação entre a cidade e o rio depende de usos mistos e não de uma qualquer especialização da área ribeirinha. Considerou que o rio tem sido objeto de uma política de incúria e que o programa Polis, apesar de ter permitido algumas melhorias, apenas fez intervenções parciais e, por isso, apenas logrou soluções inacabadas. Segundo Carlos Fortuna,“o rio não pode ser um monumento, mas um documento, que tem de ser colocado no mapa mental dos residentes, dos visitantes e dos políticos”. Para o efeito, propôs a realização de algumas estratégias para atingir esse objetivo, as quais poderiam ser discutidas em três congressos informais subordinados ao tema “Um Mondego cultural ou uma Coimbra líquida?”.

A intervenção seguinte coube à geógrafa Fernanda Delgado Cravidão. Começou por referir que “os rios não unem, separam; o que une são as pontes”, para mostrar a importância da ligação entre as duas margens do rio. Indicou os contrastes entre ambas, salientando o menor desenvolvimento da margem esquerda (a “outra”), apesar de, atualmente, apresentar maior dinâmica demográfica. Defendeu, ainda, que a margem esquerda tem maior apetência para um determinado tipo de lazer e equipamentos que a direita (que cai mais abruptamente sobre o rio). Afirmou, depois, que o rio está em decadência porque a Baixa e uma parte da Alta estão em decadência. Por isso, não havendo aí gente, essas áreas “não são um território vivido”. Considerou haver uma “indecisão estratégica permanente sobre o que se quer fazer da cidade”. Alertou para a redução do número de estudantes universitários e para a necessidade de a cidade pensar mais na população não estudantil, mais idosa. Seria, por isso, importante levá-la a fruir mais o espaço ribeirinho. Por fim, salientou a importância do rio como instrumento de desenvolvimento, pelo que “as políticas de reabilitação e de requalificação urbanas só fazem sentido se juntarmos as duas margens”.

A última intervenção coube a Pedro Bingre do Amaral, professor do Instituto Politécnico de Coimbra, engenheiro florestal e membro do CPC. Começou por historiar a evolução dos jardins e parques urbanos para criticar a conceção subjacente ao Parque Verde do Mondego. Na sua opinião, “o jardim que temos é fruto de uma tradição em que aquele era mais para ser visto de fora do que para ser fruído”. Concretizou, afirmando que “no Parque Verde, sentimo-nos expostos, no meio de um descampado e ao lado de um grande estradão”. Defendeu, por isso, a “renaturalização das margens”, através da colocação de areia e de relva adaptada ao meio, após o que se seguiria a abertura de corredores velocipédicos, com destaque para um que ligasse o Choupal ao Parque Verde. Ao mesmo tempo, considerou fundamental proceder ao repovoamento das margens do rio, sugerindo aí a criação de “urbanizações de pequena densidade”.

Encerrou a sessão o vereador e coordenador do movimento CPC, José Augusto Ferreira da Silva, que sublinhou a necessidade da Câmara assumir uma atitude proactiva relativamente a outras entidades com responsabilidades na gestão do rio e enunciou ainda a urgência de serem feitas várias intervenções no Mondego. Terminou com um apelo à mobilização dos cidadãos para terem “a cidade a mandar no rio”.

 

Texto de Jorge Martins

 

 

 

 

Quem não teve possibilidade de assistir, tem aqui a gravação integral desta sessão do ciclo “Coimbra 2030 . Pensar o Futuro | Fazer a Cidade”, que teve lugar no Basófias, no dia 23/2/2015.
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