A Cidade do Futuro – Coimbra 2030

texto da intervenção de Mariana Maia de Oliveira na primeira sessão do Ciclo "Coimbra 2030"

 

Imaginar o futuro é, desde logo, um óptimo exercício de liberdade. Pelo menos no momento em que idealizamos, a realidade não nos vais cobrar o facto de alguma coisa ter ou não sido possível. Ocorre-me, à sugestão de “pensar o futuro”, notar como lhe está ligada a dimensão do projectoprojecto enquanto acção de estender, de lançar para a frente. Projecto como alguma coisa que nasce como ideia difusa, germina, começa a encontrar relações possíveis, a tomar forma e a sofrer os primeiros embates com a realidade, se torna sucessivamente melhor – e é, finalmente, alguma coisa boa. Todas as coisas verdadeiramente boas, creio, nasceram de um pensamento não imediato – que se “estendeu”, que se “lançou para a frente”.

Ao desafio de “projectar” a cidade de Coimbra para 2030 ocorre-me uma esquematização possível e tripartida: em primeiro ponto, aquilo que está objectivamente mal e urge objectivamente melhorar; em segundo lugar, o que está bem e que, sendo desejável, interessa preservar tal como está e pôr a salvo do risco de desaparecer; aquilo que, por último, ainda não existe e que é, por isso, a nossa possibilidade de imaginar qualquer coisa. A última é, das três, talvez a mais difícil – pois que não se parte de nada que já exista e que seja apenas preciso transformar – mas, talvez por isso, também a mais estimulante.

 

Escolho falar, no primeiro tópico, acerca dos transportes públicos. Sendo, na prática, uma rede de veículos a motor que se movem de um para outro sítio da estrada – são, parece-me, uma coisa bem menos prosaica do que somos levados a crer. Os transportes são a possibilidade de as pessoas pertencerem a vários espaços.

Numa cidade em que uma parte importante da população se desloca diariamente da periferia até ao centro, a importância de uma boa rede de transportes é ainda mais evidente. A mobilidade física acaba por relacionar-se, num sentido indirecto, com a mobilidade mental das pessoas – ouve-se mais, frequenta-se mais, vê-se mais, conhece-se mais. Participa-se mais – pensa-se mais.

Em Coimbra – e aqui, creio, joga-se um ponto verdadeiramente decisivo na afirmação da cidade como espaço para todos os que a habitam – os transportes públicos não são frequentados por toda a gente. Um autocarro é o sítio onde se torna visível a existência, e a persistência, de estratos sociais demarcados. O universo das pessoas que, na cidade, pensa, decide, escreve, aparece – raramente se cruza com o das as pessoas que, diariamente, faz do transporte público o meio único de deslocação. Creio, assim, na urgência de manter uma boa rede de transportes públicos – desenhada para se dirigir a todos e para ser uma opção desejável por todos, e não apenas com as características suficientes para servir, para descanso das democráticas consciências, as pessoas que não têm outra alternativa a utilizá-los. Uma má rede de transportes públicos é um dos mais eficientes e perversos mecanismos de exclusão.

 

Elejo para ilustrar o segundo ponto – “alguma coisa que interesse preservar” – o espaço do Mercado Municipal. Escolho-o não pela vontade passadista de conservar um cantinho de pitoresco e de tradicional – mas porque é um espaço que, hoje como em 2030, tudo tem para estar no presente sem se vergar ao favor de ninguém.

Notem-se, em primeiro plano, os aspectos da sustentabilidade: os produtos que provêm, muitos, de agriculturas familiares, de pessoas que fazem do seu cultivo a sua ocupação e o seu sustento; a pequena escala que é o garante da qualidade que rareia na grande distribuição. Muito além disso, porém, cabe-nos notar a dimensão do atendimento, da relação implicada de proximidade, da flexibilidade de tratamento que se ausentou por inteiro do centro de consumo como grande máquina (que funciona, enfim, com a insensibilidade própria das máquinas). Um espaço, de resto, que sobrevive ainda à lógica do consumo mecanizado. Não estou certa de que os gestos cordiais ou o calor do cumprimento dirigido sejam relevantes para a economia – mas são-no, pelo menos, no facto de gostar de viver numa cidade e de percorrer as redes que ela possibilita. Em 2030 gostaria, assim, de ver um Mercado vivo, querendo viver, sendo parte da cidade e não, como os grandes centros, volumosas excrescências dela.

 

Refere-se o último ponto àquilo que ainda não existe e que é, por isso, a nossa possibilidade de imaginar qualquer coisa.

A imagem escolhida para o cartaz desta conferência sobre o futuro inclui, como elemento destacado, um balão dirigível. Não é este, propriamente, o meio de transporte que associamos ao tempo futurista que está por vir. A escolha remete-nos, de algum modo, para a evidência de que nos é difícil imaginar um futuro absolutamente novo. Imaginamo-lo quase sempre a partir dos elementos de que já dispomos. É difícil libertarmo-nos do já existente, da tentação de compor o futuro com elementos do passado reciclados. O desafio, neste ponto, é imaginar o futuro da cidade naquilo que nela ainda nem existe como esboço.

Não me proponho descortinar nenhuma ideia brilhante para a criação de uma estrutura nova na cidade, que funcionasse de certa maneira e cumprisse certos objectivos. Limito-me a expor a ideia, mais ou menos genérica, que lhe pudesse servir de fundo.

Uma cidade que não queira ser somente um organismo que funciona para cumprir e assegurar as necessidades básicas das pessoas precisa, creio, de espaços para o exercício do ócio. Ócio não como inutilidade – mas como o contrário do negócio, o tempo para pensar e fazer alguma coisa que não seja imediatamente produtiva; para projectar e perceber as relações entre as coisas.

À sugestão desses “espaços de ócio” não penso exclusivamente em jardins, espaços abertos, passeios públicos. Penso, de um modo mais abrangente, em espaços, estruturas, ocasiões, que possibilitem o imprevisto. Uma cidade propensa a produzir acasos – pese embora o contrassenso lógico que encerra a ideia de proporcionar o aleatório.

Creio na importância de haver espaços, estruturas, organizações, onde as pessoas se possam cruzar em sítios onde as relações entre elas não estejam ainda codificadas. Na Universidade, num Hospital, o modo como as pessoas se relacionam está já prescrito e relativamente cristalizado num conjunto previsível de procedimentos. A possibilidade de, em algum momento, proveniências e motivações diversas se poderem intersectar horizontalmente – à margem das relações que possa haver no quotidiano fora desse espaço – é de onde nasce, com grande probabilidade, a criatividade, a solidariedade, a empatia. Destes espaços, físicos e mentais – onde as possibilidades subitamente se alargam – é, creio, de onde nascem as ideias que foco neste terceiro ponto: aquelas que ainda não existem, que não são um dirigível nem um avião a jacto. São outra coisa que só pode ser deduzida pela criatividade dos que põem em marcha o imponderável exercício de projectar.

Assim termino: com o que pode ter parecido a apologia do ócio e do nada fazer – mas que procurou ser, na verdade, a apologia de poder fazer qualquer coisa.

 

Mariana Maia de Oliveira

2 de Julho de 2014

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