Terreiro da Erva ou Adro de Santa Justa. Reflexão sobre um espaço urbano e o seu futuro

Maria Amélia Álvaro de Campos[1]

Apesar de situado no coração da cidade – a alguns metros da sede do município, a poucos passos da emblemática Rua da Sofia, agora Património Mundial da Unesco – o Terreiro da Erva é paradigma de grande degradação e descaracterização urbana. Em 2012, ao terminar a minha tese de doutoramento sobre a paróquia medieval de Santa Justa, exprimi a esperança de que Coimbra voltasse a interessar-se por aquele território. Assim sendo, foi com satisfação que recebi a notícia de que o actual executivo camarário pretende levar a cabo um projecto de requalificação urbana, naquela zona. Ora, uma vez que nos encontramos no período de discussão pública que antecede a obra, julgo oportuno, por um lado apresentar a minha opinião sobre as futuras intervenções, por outro expor, brevemente, algumas linhas sobre os primeiros séculos da história daquele território.

Actualmente, ao pensarmos em Santa Justa de Coimbra, identificamos a igreja setecentista, localizada ao fundo da Rua da Sofia, no alto, precisamente, da Ladeira de Santa Justa. Devemos lembrar-nos, porém, que antes existiu uma igreja românica que resistiu cerca de 600 anos às cheias e enxurradas do Mondego e que representou, nos primeiros séculos da nacionalidade portuguesa, o núcleo central de uma paróquia estruturante para a evolução do urbanismo e para a definição da cidade em que habitamos hoje. Com efeito, o Terreiro da Erva que hoje associamos a um «feio» parque de estacionamento, encaixado entre as ruas estreitas da Baixa foi, na sua origem, o adro de uma das mais antigas igrejas de Coimbra.

Santa Justa de Coimbra é referida na documentação, desde 1098. Por essa altura, talvez se tratasse ainda de uma herdade rural, na margem do rio, a norte da cidade. Em 1102, a sua igreja foi doada ao priorado Cluniacense de Sainte Marie de la Charité sur Loire, pelo bispo de Coimbra – acção que se deve compreender, no amplo processo de romanização da Península Ibérica. Em 1139, Santa Justa é referida como sede de uma das paróquias da cidade e assim permaneceu até quase aos nossos dias, quando foi extinta e integrada na paróquia de Santa Cruz. Do ponto de vista material, refira-se que o edifício primitivo foi renovado durante o século XII, estando as suas obras concluídas em 1155. Integrou assim o vasto programa de construção e de reconstrução das igrejas da cidade, pelo qual a arquitectura da época românica se implementava em Coimbra.

Localizada no arrabalde Norte da cidade, esta paróquia viu o seu povoamento estender-se ao longo da actual Rua Direita. Território intermédio entre o núcleo urbano e o seu aro rural, foi morada de uma população diversificada, da qual se destacavam os artesãos e os trabalhadores agrícolas. Em meados do século XIV, a paróquia de Santa Justa recebia ainda a Judiaria da cidade (actual Rua Nova) e, mais tarde, reconhecem-se as referências à localização de uma mancebia que não seria longe da Gafaria (leprosaria), também aqui fixada. Porta de saída do núcleo urbano, esta, ao contrário de quase todas as outras paróquias de Coimbra, deteve, durante toda a Idade Média, a capacidade de se expandir territorialmente, e de albergar, no seu interior, aqueles que procurassem esta cidade para sua residência.

Mais visível sensorialmente do que as características que acabo de enunciar, este espaço distinguiu-se, desde cedo, pela forma como a sua morfologia urbana foi sujeita a drásticas transformações. A acção do rio, associada às intervenções urbanísticas e às construções, que a maioria dos habitantes de Coimbra saberá reconhecer tão bem quanto eu, alterou irreversivelmente aquele território, deixando praticamente irreconhecível o seu perfil original. Todavia, ainda hoje se podem identificar alguns vestígios da igreja românica, num dos edifícios do Terreiro da Erva, e julgo que muito mais poderemos colocar a descoberto se, para isso, se congregarem esforços e vontades.

Pelo que acabo de referir, considero indispensável que o plano de requalificação daquele terreiro, preveja um estudo prévio, que possibilite a preservação da memória da sua matriz original. Assim, com base no que conheço desta zona da cidade e no que tenho observado em projectos de requalificação urbana recentes, em Portugal e no estrangeiro, julgo possível, senão descobrir os eventuais vestígios dos edifícios medievais hoje em dia soterrados,  pelo menos criar um memorial que devolva a Coimbra a história deste espaço. Sublinhe-se que, nos dias de hoje, o estudo e a valorização da história de uma cidade promovem não só uma maior identificação dos seus habitantes com o património, como também o incremento da sua atractividade turística.

Interessa, desde já, por um lado evitar a realização de escavações arqueológicas apressadas, que, pressionadas pelos prazos de construção, pouco consigam aclarar, por outro estruturar um plano de intervenção aturado que convoque arqueólogos, historiadores, historiadores da arte e arquitectos, entre outros profissionais, com o intuito de resgatar o passado daquele espaço e torná-lo visível, no seu futuro. Se os esforços e as vontades se congregarem nesse sentido, talvez o Terreiro da Erva não fique na memória dos conimbricenses apenas como a imagem de um largo sombrio e cinzento, descurado e mal frequentado, que o distinguiu no último século. Essa seria uma imagem tão pouco desejável quanto injusta, para o papel que esta área desempenhou no desenvolvimento urbano da cidade que conhecemos hoje.

[1] Historiadora, doutorada em História da Idade Média pela Universidade de Coimbra, com a tese Santa Justa de Coimbra na Idade Média: o espaço urbano, religioso e socio-económico, apresentada em Dezembro de 2012. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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