José João Lucas | Coimbra, Terra de Fados?

Realizou-se anteontem e ontem, 23 e 24 de outubro, por iniciativa da Universidade de Coimbra, um Congresso Internacional intitulado‘Coimbra, cidade aberta’, visando celebrar os 950 anos do tempo de D. Sesnando, vizir ou alvazil, que é como quem diz conde de Coimbra.

Nascido provavelmente em Tentúgal, em tempo de domínio islâmico eem família com raízes cristãs, Sesnando viveu em Córdoba e em Sevilha, em meados do século XI, impregnando-se da cultura árabe na fase final do Califado de Córdoba, que, após um período de cerca de um século de esplendor económico e cultural, se desmoronou e fragmentou. Era, pois, um moçárabe, isto é, um nativo conimbricense com forte influência árabe, seguramente bilingue (não confundir com cristão islamizado).

Regressado a Coimbra, participou na chamada reconquista por conta de Fernando Magno, de Leão, após o que, oficialmente como seu vassalo, governou a cidade e a região, com amplos poderes, durante quase trinta anos, desde 1064 a 1091.

Todas as comunicações apresentadas ao Congresso – de historiadores, dearqueólogos mas também de um arquiteto – abordaram diversos aspetos da governação deste senhor feudal moçárabe, promovendo uma revisitação e uma reflexão sobre a sua ação na região de Coimbra e as suas repercussões no território peninsular. A sua cultura híbrida e aberta fez dele uma personalidade original que conjugou uma atividade forte de reorganização do território, designadamente pela construção ou reconstrução de castelos da linha do Mondego, com a promoção de relações comerciais e culturais com várias cidades do Al-Andaluz, em ambiente de relativa paz e real articulação com os poderes vizinhos, oque as favoreceu muito.

Este mote serviu para que, duma forma ou doutra, os intervenientes, ligando a cidade à universidade, ambas pluricentenárias – com os vários momentos, mais ou menos felizes por que esta passou desde a sua fundação – quisessem, a partir deste período fecundo do longínquo século XI – anterior, portanto, à nacionalidade – retirar ideias-força, esboçar caminhos de futuro, enfim, construir projetos de uma cidade, mais integrada, mais cosmopolita, mais criativa.

Apesar da diversidade dos pontos de vista, a generalidade das pessoas afirmou que a cidade de Coimbra foi, por esta época, uma cidade muito viva e de muitas cores – económicas, religiosas, linguísticas e culturais – bem diferente de outras épocas em que as intransigências, os sectarismose os fanatismos a tornaram uma cidade fechada sobre si mesma,repulsiva e decadente.

Houve até quem a entendesse como uma cidade não tanto lugar defronteira – entre um norte submetido a senhores feudais, civis e clericais, obedientes ao papa Roma e um sul mais sujeito à influência andaluza e mais voltado para o Mediterrâneo e Magreb. Seria preferível apelidar Coimbra de um território-encruzilhada, favorável aos movimentos e aos intercâmbios, às partidas mas também às chegadas, enfim, aos contactos e às comunicações, nos tempos de hoje, extensíveis à escala global.

Também houve quem dissesse que as múltiplas atrocidades aqui vistas nestes 10 séculos desde D. Sesnando – podemos estender o sentido da palavra às cometidas contra a vida das pessoas ou contra as estruturas físicas e as edificações da cidade mas também contra as diversas vias de comunicação com outras cidades – causaram fortes danos à projeção de Coimbra no território da região e do país.

Talvez estes períodos negativos tenham predominado e marcado de forma mais dura o percurso milenar da cidade. Se calhar, até por isso, o ferrete do fado – o ‘fatum’ dos latinos ou a ‘moira’ dos gregos – terá, inconscientemente, influenciado as consciências, configurando-as paraque se conformem com este estado das coisas em que o dia seguinte parece sempre pior que o anterior. Compete-nos desfazer este nó – e é isso que nos tem mobilizado, orientando a ação dos autarcas e dos militantes do Movimento ‘Cidadãos por Coimbra”.

Proponho-me, aqui, apontar três áreas fulcrais em que a governação da cidade está gravemente afetada por supostas predições maléficas e merece o nosso cuidado. Os verdadeiros ‘fados’ de Coimbra.

O primeiro prende-se com o investimento público neste território. Desde dos anos oitenta, quando os paladinos de neoliberalismo começaram a tomar conta dos destinos do país, que se começou a ouvir que o investimento público deveria ceder o lugar ao investimento privado, que os serviços públicos deveriam procurar ‘autofinanciamentos’ da chamada ‘sociedade civil’, que os cidadãos deveriam começar a pagar muito mais por eles, que as grandes iniciativas construtivas deveriam avançar com a predominância de investidores empresariais. Este discurso, que se intensificou, entre nós, sobretudo a partir do primeiro governo de Cavaco Silva, correspondeu a duas constantes que se implicam mutuamente: tendência para a diminuição da responsabilidade do estado na governação das cidades e na gestão dos serviços públicos e intensificação das ‘permissividades’, ‘permeabilidades’ e ‘promiscuidades’ entre os interesses privados e as decisões e realizações políticas. Todos nós ouvimos estas notícias e aqueles discursos, desde há, pelo menos, três décadas. A vinda de dinheiros europeus favoreceu esta lógica de apropriação de dinheiros públicos por entidades privadas, mediante variados processos de ativação de fluxos financeiros, escorrendo dos cofres estatais ou autárquicos para as mãos de privados. As contrapartidas passaram a surgir de imediato: as entidades contempladas teriam que devolver uns trocos. Coimbra não fugiu a esta regra. Quando fui eleito, em 2009, para a Assembleia Municipal pelo Bloco de Esquerda, o assunto estava no auge da exposição mediática,com as cumplicidades reveladas entre a Câmara Municipal e os interesses da construção e do futebol. A Catarina Isabel Martins e o Serafim Duarte tinham passado o mandato anterior, desde que foram eleitos em 2005, a denunciar este estado de coisas com os responsáveis a ‘assobiarem para o ar’, fazendo-se gravemente ofendidos, até chegando a apresentar queixas em tribunal contra declarações políticas da oposição. Passaram-se mais de dez anos e… o fado continua. Como declararam o nosso vereador José Augusto Ferreira da Silva e também o nosso deputado municipal José António Bandeirinha é urgente que se resolva, depressa e de acordo com a lei, este pesadelo dos ‘Jardins do Mondego’. Até por uma questão de simbolismo: é determinante acabarmos de vez com esta época das formas mais ou menos veladas decorrupção na gestão autárquica, dando seguimento às decisões dos tribunais e inaugurando um período de maior transparência dos atos da governação. Temos que procurar os modos de atuação que convirjam neste sentido, designadamente que impeçam processos semelhantes,como por exemplo nos ajustes diretos de obras por parte do presidente da Câmara.

Segundo fado: o rio. Se o Mondego foi fonte de poetas, também foi estrada para transporte de pessoas e mercadorias e espaço de desporto e lazer. O rio Mondego não separa, mas liga as duas margens. Competeaos responsáveis promover e potenciar essa ligação, pois está aqui o centro da nossa cidade. Um exemplo do que não pode continuar a acontecer: à estação ferroviária de Coimbra (estação nova) e ao espaço circundante chegam todos os dias e a todas as horas pessoas que aqui trabalham, estudam ou tratam doutros assuntos das suas vidas. Depois de porem os pés em terra, as pessoas estão em perigo: para qualquer lado para onde se desloquem, os passeios são estreitos e irregulares, as travessias das ruas arriscadas, a circulação automóvel exagerada. A Avenida Fernão de Magalhães já foi considerada a rua urbana de maior trânsito no país, antes de se construir no final dos anos oitenta – ao que dizem por mercê dum ministro até aí conimbricense – uma via externa em direção ao norte da cidade. O exterior da estação de Coimbra B – agora finalmente com obras de remedeio por iniciativa camarária – continua bloqueado, porque o projeto de reformulação da estação nunca mais avança. A ideia da construção de parques de estacionamento amplos, funcionais e seguros nas várias periferias da cidade, servidos por transportes públicos frequentes e práticos, é uma prioridade. O centro urbano tem que ser reedificado, revitalizado e transformado num espaço de fruição dos cidadãos. Continuaremos a lutar pelo projeto do Metro Mondego. Voltando ao rio: os muros de suporte nas duas margens estão em degradação acentuada colocando em risco a segurança de pessoas e bens. Várias têm sido as denúncias… mas a fatalidade continua. Qual é a entidade pública que deve ser responsabilizada? O rio, sendo uma condição física do território, que serviu durante séculos a vida de muitas comunidades e duma grande região, não se pode transformar num pesadelo.

Finalmente, o fado da educação. Dois exemplos de escolas com ensino até ao 9.º ano – uma no centro, E. B. Silva Gaio, outra na periferia E. B. de Ceira. Ambas estão, de ano para ano, a perder alunos, colocando-se já a possibilidade de encerrarem ou de terem que se reconverter. É um problema de natalidade, comum a todo o país, mas é também um problema de acessibilidades e de enquadramento urbano. A escola Silva Gaio – bem situada ali à beira do Mondego – está em transição para qualquer outra coisa – Faculdade de Desporto, Instituto de Emprego e Formação Profissional ou outra coisa qualquer. Provavelmente até pode ser privatizada. Quem decide? A escola de Ceira – essa, mal localizada por opção camarária na cedência do terreno – corre os mesmos riscos de encerramento. Mais um edifício público fadado ao abandono? Para quando uma verdadeira carta educativa, construída com a intervenção e o conhecimento de especialistas e com a participação informada dos cidadãos?

Por último, subindo à colina. Falando recentemente com uma professora da Faculdade de Letras, a situação é a seguinte: a generalidade dos professores está à beira da aposentação. Os que estão no ativo e que mantêm as atividades de lecionação, de investigação e de transferência de conhecimento entraram ao serviço nos anos 60 e 70, quando a Universidade se expandiu intensamente. O recorrente desinvestimento no ensino superior público, com forte incidência nas áreas das humanidades, fez com que não haja docentes mais jovens, devidamente formados e qualificados, para substituir aqueles. Fecham-se os cursos e as áreas com pouca afluência, não se contratam novos professores e, como se sabe, há efeitos retroativos que são ignorados pelos governantes. Se fecham, também deixa de haver estímulo para as candidaturas e os ingressos. Aquilo que já se notava há, pelo menos duas décadas, nestas áreas das Línguas e das Culturas, está a acontecer agora até nas áreas ditas ‘duras’ como sejam as das ciências experimentais e até das engenharias. Como se sabe, nas candidaturas deste ano letivo, muitos cursos de engenharia ficaram desertos ou com poucos alunos.

Amigas e amigos, quando não são só as nossas escolas básicas e secundárias, mas também a nossa universidade, em que muitos colocam a esperança do futuro da cidade, que começam a dar sinais de menor atratividade, o que é exigível que façamos? Temos que continuar aagregar pessoas, a promover recolha de informação e reflexão coletiva, a divulgar conclusões e propostas, remando contra estes fados que nos entorpecem a vida. Creio que estamos no bom caminho, embora precisemos de muitos mais remadores, porque remando com persistência, contrariam-se os fados e faz-se mais cidade, seguramente uma cidade mais aberta.

Coimbra, 25 de Outubro de 2014

José João Lucas

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