José António Bandeirinha | Que sentido tem apoiar o Metro Mondego?

Passados mais de vinte anos sobre a decisão política de converter o ramal ferroviário da Lousã numa linha de metropolitano ligeiro, e quando ainda não existe sequer um estudo técnico credível, que sentido tem hoje apoiar o Metro Mondego?

De então para cá, a cidade e a região de Coimbra têm vindo a sofrer a passagem de uma rede de transportes públicos fraca e ineficaz para um sistema agonizante, inútil e em vias de falência total. Os transportes públicos e a mobilidade são um dos indicadores mais fiáveis do índice de civilização e de urbanidade do território.

Quando as cidades possuem sistemas de mobilidade bem estudados e bem estruturados, para além das óbvias vantagens energéticas e ambientais que isso traz, possuem também uma actividade essencial colectivizada e regulada, possuem modos de vida mais libertos dos constrangimentos e da dependência do meio de transporte individual, possuem opções de deslocação mais variadas e mais ricas, possuem um modo de vida mais consentâneo com os modelos da cidadania activa e democrática.

Esses sistemas não existem por si, isolados da vida e das opções políticas das cidades. Têm como condição essencial o ordenamento equilibrado do território urbano, têm condicionantes de planeamento a montante e a jusante, condicionantes que não se compadecem jamais com a laissez faire da navegação à vista, nem com as mantas de retalhos de loteamentos privados desgarrados, para contrapartidas de favores político-eleitorais.

A instalação de um sistema de metro ligeiro de superfície, em Coimbra não é, por conseguinte, apenas mais uma medida de beneficiação ou modernização de umas infra-estruturas ferroviárias, muito menos deve ser encarada unicamente como a fixação na região de uma entidade empresarial na área dos transportes em comum. É isso tudo, mas deve ser muito mais.

Deve ser, no essencial, uma medida integrada de planeamento, que transforma a cidade e a sua área envolvente num espaço muito mais organizado, com opções de mobilidade que já não estão unicamente dependentes do meio de transporte individual e, por conseguinte, se estenderão tendencialmente a um leque de cidadãos muito mais vasto que o actual. Deve contribuir para qualificar os territórios urbanos onde se insere.

É por demais evidente, para quem conhece a realidade dos transportes em comum na maioria dos países europeus, que a implantação deste tipo de sistemas serviu também e complementarmente para abrir novas frentes urbana, que vêm tornar mais agradáveis e mais civilizadas as áreas centrais da cidade. Não são, nunca foram, incompatíveis com as intenções de patrimonialização dessas artérias, muito pelo contrário, servem para revitalizar áreas em decadência acentuada. Mas para que isso seja assim, é absolutamente necessário investir na qualidade dos projectos urbanos de intervenção.

No caso de Coimbra, para irmos ao que de mais específico há neste nosso apoio, a inserção do Metro Mondego, se for bem planeada, pode ser a medida mais eficaz para a revitalização social e económica dos espaços centrais da cidade, também eles em lenta e desprezada agonia.

As políticas de incentivo à densificação demográfica dos espaços urbanos centrais, que o CpC tem vindo a defender desde a primeira hora, são também essenciais para o êxito da implantação de um sistema de mobilidade estruturalmente assente no Metro Mondego. A sustentabilidade do sistema depende obviamente da procura, quanto mais gente for servida, maior é essa procura, mais sustentável se torna a grande capacidade de carga dos transportes.

Mas, para que tudo isto aconteça são necessários outros meios de pressão política e social, outras equipas de gestão que não aquelas que temos tido ao longo destas duas décadas. É necessária uma visão cidadã, uma visão fundamentada pelos saberes técnicos que proliferam sobre o assunto, centrados nos interesses da cidade, em suma, uma visão que ultrapasse a mera atribuição de cargos aos rapazes e às raparigas do partido A e do partido B.

São estas e muitas outras condições, que, diga-se, já levam uns bons trinta anos de atraso, que tornam ainda mais urgente o apoio do CpC ao Metro Mondego.

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