Graça Simões: ÁGUAS QUE ACORDAM MEMÓRIAS E FUTUROS

[Ecos de Cidadania] Todos os anos há um apelo para descer ao rio. Vem do fundo do tempo e é impulso sadio e feliz, que segue o cheiro da água e do sabão e o prazer dos pés dentro de água, mas ativos e com propósito de trabalho. Lavar no rio Mondego, ao som de carros e comboios a atravessar as pontes da Portela, o mundo a passar enquanto a roupa se purifica, é uma das melhores memórias de miúda. As pedras, escolhidas e montadas pelas lavadeiras do próprio leito do rio, alinhavam-se na margem da corrente e no areal limpo estendia-se a roupa a corar, numa química fabulosa entre a areia, o sol, a água ímpar e o sabão. Não há nada como o cheiro dos lençóis lavados no rio! Não há nada como esta água para lavar sem esforço – ou pouco – as roupas de casa!

E pronto. Logo que o trabalho e o céu têm abertas, lá desço o rio a satisfazer estes apetites. E há mais como eu. Há dias lá cheguei e outras mulheres também, com as quais tive que partilhar o espaço e as pedras, agora reduzidos e desleixados entre lixo, terras revolvidas e amontoadas, arbustos imensos a tomarem conta do areal.

Enquanto esperava que a roupa apurasse, deixei que os peixes picassem os pés e as ideias a cabeça. Como não reconhecer e valorizar esta dádiva única? Quantos espaços haverá como este, em que se desce de automóvel até ao rio, que passa corpulento e sereno entre o areal e o verde, a dois quilómetros do centro da cidade? Não, não estou a pensar em mais uma “praia fluvial”, com estruturas urbanizadas e de consumo. Estou a pensar mesmo e apenas numa limpeza das margens e num arranjo natural de pedras de lavar, num cenário hospedeiro de boas práticas em todos os sentidos – estético e turístico, quase certo, mas sobretudo económico e cívico, saudável e sociável. Não sei bem, mas acredito que “o sabão não mata e até lava os peixes”… Eles lá andavam cor de prata…

Mas temos ainda o caminho tortuoso para o rio, em que o asfalto se suspende de repente no fim das casas do lugar que se atravessa, continuado por crateras imensas, ladeadas por acampamentos de famílias ciganas que aproveitam mesmo o viaduto como teto. Ter o rio ali é muito bom, confirma a Marta, uma menina cigana que veio conversar comigo, mas no inverno é muito frio e ela gostava de uma casa e de aprender a costurar ou a fazer lã. Não sei como, mas o rio e a conversa, ali, mansos, espelharam um mundo melhor nos nossos olhos.

Quem pode começar nesta ponta?

Graça Simões

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