Fernando Madaíl: Deitar Coimbra no divã do Dr. Freud

Num inquérito que a Revista C fazia aos conimbricenses “estrangeirados”, eu respondia, há três anos, que Coimbra é “um caso de psicanálise: as pessoas enaltecem o que não interessa e menosprezam o que é único”. Estava a tentar imitar o ensaísta Eduardo Lourenço, deitando a cidade no divã do Dr. Freud, como ele fez com o país em “Psicanálise Mítica do Destino Português”, no livro O Labirinto da Saudade.

E, deitando-a no divã, verificamos que, como sucede com a meteorologia de extremos – esta cidade tem verões africanos e invernos de Sibéria –, Coimbra não só cultiva uma perspectiva dupla (duas Sés, dois conventos de Santa Clara, duas estações, o eterno par estudante-tricana), como também é bipolar (quer ter o mesmo que Lisboa, mas deixa que Braga lhe roube o estatuto de terceira cidade; mitifica o passado e vai chorar no futuro aquilo que não defende no presente: o comércio da Baixa, os agentes culturais, o Choupal, as árvores da Emídio Navarro).

Um dos defeitos que facilmente se detecta é aquele que Eduardo Lourenço, ainda no livro O Labirinto da Saudade, critica como a “classe de ociosos colados como lapas às mesas dos cafés” – e podemos pensar logo no Tropical ou no Trianon, no Santa Cruz ou na “desaparecida” Brasileira. E, por aqui, há, sobretudo, a queixa, a lamúria, o lamento.

Certo dia – vivia eu, então, no Porto – cheguei à Praça da República e perguntei pelas “novidades” a quatro ou cinco pessoas. Respondiam-me:

– O mesmo de sempre. Não se passa nada.

Eu retorquia:

– Na semana passada, esteve aqui o Lou Reed, no Parque de Santa Cruz. Hoje, vou ver o David Holland, ao Pátio da Universidade. Na próxima semana, vêm os Rolling Stones…

E tinha como eco:

– Está bem. Mas, além disso, está tudo na mesma.

Os exemplos podem multiplicar-se. Quando telefonei para saber qual era a importância do prémio que João Mendes Ribeiro tinha ganho na Quadrienal de Cenografia de Praga ninguém me sabia esclarecer. Como deve ter passado quase em claro o facto da FBA. ter feito uma das 50 melhores capas de livros do mundo. Ou que uma equipa do Centro de Neurociências e Biologia Molecular tenha descoberto a forma de eliminar células estaminais cancerígenas. E por aí fora.

Isto significa que o talento aqui existente só é reconhecido quando o exterior o confirma – e mesmo assim… De Herberto Helder, que podia ser reivindicado pela cidade, pois até escreveu um poema numa parede da República Palácio da Loucura, até José Luís Ferreira, director do Teatro São Luiz (Lisboa), depois de ter sido o responsável pelas relações internacionais do Teatro Nacional São João (Porto), mas a quem não se ligava quando aqui esteve no Teatro Académico de Gil Vicente…

As minhas críticas não se ficam por aqui: da pasmaceira de Agosto, quando o turismo moderno se faz nas cidades e, nesta, nada há, além de folclore pindérico (e um jovem candidato à universidade que aqui venha, nesse mês, desistirá de viver numa terra aparentemente tão desinteressante), até ao doutor que, em Coimbra, se gaba de não ir ao cinema nem ao teatro, de não comprar jornais nem ir ver exposições – o que é impensável em qualquer outra cidade universitária.

Por outro lado, aquilo que a cidade tem, despreza. O Diário de Coimbra é o “Calinas”, o “Times da Sofia” – mas não há jornal melhor em Braga, Aveiro, Setúbal, Funchal. De igual forma, em minha opinião, a Escola da Noite tem trabalhos tão interessantes como a Cornucópia; o CAV e o CAPC exposições de nomes tão ou mais importantes que Serralves. Se Braga tivesse, por exemplo, uma Critical Software, proclamava, com fanfarra, que era a Sillicon Valley lusitana. E se no Funchal houvesse um Museu Nacional Machado de Castro, Alberto João Jardim garantiria que era melhor que o British e que o Louvre.

Tendo uma imagem negativa de si mesma – ao contrário do que sucede em Aveiro ou no Porto –, Coimbra transmite o mais bolorento da sua realidade. Os lisboetas – a quem tenho de corrigir quando dizem que o “Ótocarro treUze é vermÂlho” – continuam a pensar que Coimbra é só o fado do tempo do Hilário. E ignoram a Brigada Victor Jara, os Belle Chase Hotel, os WrayGunn, os Anaquim, The Legendary Tiger Man. Para eles, a Universidade de Coimbra é um monte de teias de aranha, que parou, na melhor das hipóteses, no neo-realismo. E não tem especialistas no cinema de Manoel de Oliveira, artigos científicos com tantas citações como os do físico Carlos Fiolhais, uma biblioteca de Direito que é das mais importantes do mundo, pólos fundamentais para a nossa História recente como o Centro de Documentação 25 de Abril, núcleos de pesquisa tão vanguardistas como o IBILI – cada um acrescente o que quiser.

Parece que me estou a afastar do tema. Mas não. Julgo que é a partir desta análise feita no divã que se pode avançar para a imaginação criadora, a que também se refere Eduardo Lourenço. “A rêverie do poeta, a especulação do cientista ou do filósofo, só a imaginação transforma, transfigura e remodela a face do mundo e não o exercício rotineiro de uma ‘prática’ que, sem ela [a imaginação], é, no melhor dos casos, um acerto cego.”

E, por fim, deixo aqui alguns desejos soltos para daqui a 15 anos, que são todos baseados num presente a que se acrescente alguma ambição: a massa cinzenta envolvida no desenho da cidade; a Alta e a Baixa recuperadas e vividas; um festival no verão que trouxesse juventude à cidade; 15 vezes mais patentes, inovações, artigos científicos (para contrariar o anátema de Miguel Torga, ao sustentar que, nos seus sete séculos de existência, desta universidade não saiu um invento, uma teoria, uma descoberta); 15 vezes mais empresas de tecnologia de ponta a aproveitar o saber universitário – da indústria farmacêutica à aeroespacial; um circuito turístico-cultural pelas casas dos escritores (o que alguém, próximo de mim, baptizou como “Bairro dos Poetas”); 15 lojas-âncora na Baixa, em vez de mais centros comerciais; 15 boas peças de arquitectura contemporânea; o Santa Cruz na lista dos cafés mais bonitos do mundo; 15 eventos culturais em destaque no circuito internacional; a Universidade de Coimbra entre as cem melhores nos rankings internacionais; um elevado grau de exigência e de ambição dos conimbricenses.

E que se tocasse um requiem respeitoso pelo seu passado e se compusesse uma sinfonia a saudar o seu futuro.

 

Fernando Madaíl

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One comment

  • Luisa Bebiano C.

    No fim de semana passado estive na aldeia onde a minha avó materna viveu toda a sua vida. No domingo, o povo mobilizou-se para cobrir o chão das ruas com flores e folhas. Arranjos florais em vasos ladeavam todas as ruas da aldeia e as portas das casas estavam praticamente todas abertas.
    Ao ouvir a banda, corri ao seu encontro e perguntei o que se passava: o André era finalmente Padre, responderam.
    E não foi só pelo fervor religioso que a banda tocou por todas as ruas onde as pessoas estenderam colchas brancas nas janelas; não foi só pela ideia do culto católico que todo o povo foi atrás da filarmônica e que se fez uma festa para todos os habitantes da aldeia da Pocariça. Esta festa genuína aconteceu, porque uma das pessoas mais queridas da terra, iniciou um caminho que lhe é muito importante e reconhecido na comunidade.

    Durante a tarde de Domingo lembrei-me das vezes que vi a banda a tocar na casa das pessoas quando acabam um curso ou começam a trabalhar, ou quando alguém se despede temporariamente da aldeia ou da própria filarmônica. Lembrei-me do largo cheio de gente para homenagear o compositor conterrâneo que lhe deu o nome: Antônio de Lima Fragoso; dos casamentos com gaitas de foles pela rua; das festas religiosas, adaptadas das festas milenares profanas que buscam uma unidade na comunidade e onde todos se visitam, casa a casa; dos bailes; das bandas; das caminhadas a pé com os vizinhos; dos passeios de bicicleta de verão, com a família alargada com mais de 30 primos.

    No domingo passado senti que gostava que aquela fosse a minha terra, porque as pessoas se tocam e se celebram de uma forma que eu já não me recordava.
    É talvez disso que eu sinto falta em Coimbra. Desse toque humano de homenagem e respeito de uns pelos outros, quando fazemos alguma coisa boa, ou simplesmente porque caminhamos para sermos mais felizes em conjunto.
    É isso que falta reconhecer e reaprender a ser.

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