Isabel Campante: menos umas “últimas”…

A notícia não é o homem que mordeu o cão…

A notícia é o despedimento de vários profissionais e o encerramento de delegações dos jornais da Controlinveste em Coimbra.

(E não vou falar aqui dos novos casos pessoais afectados por este clima de “nada é seguro”, “nada é certo”, “tudo é culpa nossa”. Até porque “hoje já estamos muito melhor” mas desculpem por um bocadinho que vamos extinguir o amanhã em que estamos a viver.)

O que significa para Coimbra o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias fecharem aqui as delegações? Quais as consequências para uma cidade com uma capacidade reivindicativa já tão pequena? As notícias da nossa inexistência ficam maiores.

Uma vez uma editora de cultura de um jornal nacional disse-me que se o espectáculo de que eu lhe falava era efectivamente bom, então ia a Lisboa e aí escreveriam sobre ele. Recordo-me muitas vezes disto. E agora fico a pensar como é que fazemos para levar uma cidade, um concelho, uma região a Lisboa…

Não vou aqui tentar explicar como foi que aqui chegámos. De quem é a responsabilidade. Contar os jornais que não comprámos, os anunciantes que não existem. E se compreendo o que os números significam para as empresas que são os jornais, se compreendo que se pode fazer tudo com menos meios (mas pode mesmo?), se compreendo que… Não compreendo da mesma maneira que politicamente isto não seja acompanhado por um reforço inequívoco do serviço público de informação na região. Temos de o exigir. E o poder local tem de ser a primeira voz a fazê-lo.

Porque um destes dias, a alegria é ter uma praça com umas algaraviadas; um estrado antigo e mal montado, um chafariz por perto, uma tricana, muitas tunas, memórias falsas e futuras desumanidades num directo de um programa televisivo de sábado à tarde. E esperar que a factura para a autarquia não seja elevada.

Um destes dias… não há jornal para o cão morder e isso é da ordem da evolução dos tempos — a tecnologia e isso… Mas o pior é que não há jornalista para noticiar que um homem mordeu o cão.

 

Isabel Campante

[fotografia © Erich Hartmann/Magnum Photos]

 

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3 comentários

  • Se a memória não me atraiçoa faz agora um ano andávamos nós no meio da “algaraviada”, porque é lá também que a política tem de ser feita… Será, no mínimo, estranho que andemos nuns sítios (os próprios, poder-se-á dizer) a tentar manter de pé apesar da sanha austeritária o “estrado antigo e mal montado” ao pé do chafariz e noutros proclamemos (para além da mais que legítima preocupação com o silenciamento e a invisibilização da cidade) o desprezo pelo que para muitas pessoas (algumas nossas eleitoras) é a única experiência cultural. E uma alegria.

    • Parece-me que a questão central aqui, não se prende com a legitimidade cultural das festas populares mas sim com a sua falta de qualidade. E acima de tudo, com a ausência de uma cultura plural, que pode ser global, local, nacional ou internacional e contemporânea em simultâneo, não amarrada aos vícios que podem tornar a cultura decadente. A consequência de nos privarmos de chamada “cultura de vanguarda”, faz com que não nos questionemos que na base da sociedade está o encontro e a partilha de experiências que nos podem transcender um pouco cada vez mais. A cultura é a base do nosso conhecimento, através do qual, transmissão, partilha, pensamento e emoção se misturam. E isto deve ser encarado com seriedade e alegria (as duas palavras não são opostas) mas também com qualidade estética, evolutiva e honestidade intelectual.
      E onde entra a comunicação? Ora, temos em Coimbra o exemplo paradigmático do encerramento de várias delegações de jornais que percorrem o país de Norte a Sul. A falta de transmissão daquilo que se passa em Coimbra, dificulta a comunicação para Lisboa e para o resto do país dos problemas com o quais nos confrontamos diariamente, o que leva, por sua vez, à ausência de respostas. Isto arrasta a cidade para um abandono crescente, um desinteresse geral das gerações mais novas e leva, por consequência, ao seu sufocamento pelas políticas autárquicas medíocres e pela relação decadente e amarrada da velha (e por algum motivo não a chamo antiga) Universidade de Coimbra.
      Confesso que a minha imagem pesadelo de Coimbra, com feiras medievais a habitarem a Sé Velha, as guest house a serem o mote de reabilitação da alta e a enchente de turistas à procura de um património cristalizado, está cada vez mais a apoderar-se de mim e a fazer-me pensar seriamente em viver numa aldeia a sério, ou pelo contrário, numa cidade cosmopolita que não seja um “museu vivo” (e digo ainda “vivo” para não lhe chamar já embalsamado) ou o paradigma de estrados mal montados.
      Isto definitivamente é que não.


      E a política onde se faz? Em todo o lado e por toda a parte. A nossa forma de viver, encarar o mundo e o habitar, de nos relacionarmos com os outros, de nos respeitarmos, tolerarmos e reivindicarmos, são por si só formas de fazer política activa.

  • Um estrado antigo e mal montado é um estrado antigo e mal montado, Helena. A única virtude que tem é o facto de ser o que resta quando nos privam de tudo o resto, nomeadamente de um estrado moderno e bem montado. Reconhecer que é melhor do que nada e ser solidário com quem o monta e com quem nele actua é bem diferente de achar que é disso que as pessoas gostam e precisam. Merecemos todos/as mais, como estou certo que concordas. E o silenciamento de que a Isabel fala conduz-nos a cada vez menos.

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