Isabel Prata: Do salve-se quem puder

A rapariga acabara de encaixar (não se pode falar de estacionar nestas circunstâncias) o carro em cima do passeio. Abeirei-me dela tentando apelar ao seu civismo, “sabe que no edifício aqui ao lado se fazem exames médicos e que chegam doentes em macas e em cadeiras de rodas…”; pois a rapariga compreendia isso tudo mas, com a maior lata deste mundo, ” não tenho outro sítio para estacionar”;“se não tem outro sítio para estacionar, tem que estacionar mais longe, ou vir de autocarro”. Bom, não vale a pena continuar o relato, que é o meu pão-nosso de cada dia. E de cada vez que acontece e que não me consigo calar, o mínimo que recebo é olhares assassinos de meta-se na sua vida e não chateie.

Mas esta é a minha vida, é a vida de nós todos, mesmo daqueles que, não andando de cadeiras de rodas, precisam de um passeio para a sua segurança e não têm que prescindir dele para dar lugar aos carros.

Muitas vezes oiço dizer, a propósito de tudo e de nada, isto só em Portugal, isto só os portugueses, crença que o meu conhecimento de outros países quase sempre desmente. Mas, no que toca a estacionamento selvagem, tenho que dar o braço a torcer, não há nada tão mau como aqui.

Não sei se em Portugal Coimbra se destaca pela negativa, mas quem passar na zona do Hospital da Universidade e do Polo 3 da Universidade (ironia serem as zonas ligadas à Universidade os piores exemplos) diria que sim.

Continuando com o exemplo dos HUC-Polo 3, é preciso dizer que é das zonas de Coimbra mais bem servidas de transportes públicos, mas para quem quer andar de carro e não o quer parar a mais de dez metros do destino, nunca há suficientes transportes públicos, e era isto que me explicava, com a maior lata do mundo, a rapariga do início desta história.

Como se resolve esta triste realidade? Depois de assegurar que há transportes públicos, de que há informação suficiente sobre como chegar e acerca de parques alternativos e, já agora, informação bem visível e pedagógica de que não haverá mais tolerância para estas atitudes, resolve-se com repressão: multas e reboque para quem estaciona de forma irregular.

É certo que se permitiu uma exagerada densidade de serviços sem a necessária planificação de acessibilidades (e estacionamentos). Mas nada justifica o salve-se quem puder com que me deparo todos os dias.

O que se passa com o estacionamento no Polo 3 da Universidade de Coimbra envergonha a Universidade e envergonha Coimbra.

Isabel Prata, cidadã de Coimbra

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