Leonor Barata: O Estado da Arte – Coimbra 2014

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António Pinto Ribeiro num texto no Jornal Público de há uns anos falava da importância de se acarinharem os artistas uma vez que eles são o último reduto de representação de uma cultura e de um povo quando tudo o mais se perde, quando tudo o mais arde.

Este carinho não se prende com mordomias e luxos, não se prende com camarins cheios de rosas brancas, com automóveis topo de gama, ou com alguma excentricidade que, às vezes, gostamos de lhes colar à pele.

Este carinho significa um real respeito pela sua actividade e uma compreensão cabal das especificidades do seu trabalho e dos seus projectos.

Bem sabemos que quando o país está de pantanas e quando a dívida e a crise se apresentam como razões absolutas, é de extrema dificuldade fugir à lógica implacável do mercado e é verdade que o que os artistas fazem no seu quotidiano e no seu local de trabalho não vem cotado em bolsa nem interfere nas avaliações externas a que somos submetidos periodicamente.

Mas também é verdade que a bem da democracia e do pluralismo, os artistas e a sua actividade (muitas das vezes inconveniente ou demasiado lúcida) não podem ser reféns de lógicas políticas de agrado e desagrado e muito menos de estarem dependentes da boa – vontade de algum decisor anónimo para que consigam cumprir a sua função. Os artistas não podem ver a sua actividade submetida a um esquema de gratificação ou castigo à semelhança de uma criança de 3 anos que não comeu a sopa toda.

Esta foi aliás a razão porque se instituíram no final dos anos 80 os apoios anuais às artes do espectáculo.

Na base da sua implementação a ideia de que o Estado deve subsidiar ou apoiar as diferentes actividades artísticas, uma vez que elas são do interesse público e potenciadoras do bem comum e que pela sua própria natureza escapam a razões financeiras e mercantilistas.

A estes motivos acresce um outro de igual importância: a de se considerar que só através de apoios constantes atribuídos através de regras claras se poderia atingir uma continuidade na produção, criação e pedagogia artistica e consequentemente evoluirmos enquanto sociedade.

Todos sabemos que o sistema não era perfeito e que o dinheiro disponível sempre foi pouco, mas todos sabemos também o que aconteceu nestes últimos anos.

O governo PSD / CDS extinguiu o Ministério da Cultura, criando em seu lugar uma secretaria de estado e cortou os apoio existentes em 40%, havendo inclusive concursos que não abriram. Em três anos destruiu-se o pouco que começava a existir.

Às mãos de uma política de números cegos e de contas de merceeiro lá se foi a dignidade das artes, a continuidade dos projectos e a possibilidade de novos mundos em Portugal.

Perante este cenário desolador era de esperar que o poder autárquico reagisse com veemência e determinação naquilo que é o seu património mais único, deitasse mãos à obra e reflectisse sobre dois grandes eixos:

O primeiro perceber a real dimensão das consequências que esta nova política trouxe aos agentes culturais da nossa cidade e discutir em conjunto quais as formas de a minorar.

O segundo aproveitar para definir de vez um plano mais ambicioso para a sua vida cultural, criando um documento estratégico com visão de futuro que integre os diferentes actores e os inclua nas tomadas de decisões, vendo-os como parceiros e não como subalternos.

É urgente uma programação cultural articulada e pensada que rompa com a lógica dos oásis pré eleitorais e com o deserto que se lhe segue inexoravelmente.

Para isto é urgente uma politica de apoios autárquicos às artes da região, que seja muito mais ousado que a mera manutenção dos apoios já existentes, ou a criação de uma agenda 7, que nos informa que Coimbra acontece todos os dias, e que na verdade nada acrescenta à já pré existente Preguiça Magazine ou a Coimbra B.

Coimbra acontece todos os dias. O slogan é bom e atrativo, mas como todos os bons slogans publicitários esconde mais do que mostra, porque uma análise séria e rigorosa far-nos-ia ver que há muito que desaparece em Coimbra todos os dias.

Nada nasce sem ser semeado, nada cresce se não for acarinhado.

É altura de ver a floresta e não apenas umas árvores que deviam ser cortadas.

 

Leonor Barata, 2014

(intervenção na Assembleia Municipal de 4 de Maio)

 

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