“alimentar o mundo, cuidar do planeta”

 Imagem

José Dias *

Em 2050, 80% da Humanidade viverá em cidades.

Em algumas delas assiste-se ao renascimento dos “jardins operários”. Tal corresponde à tentativa de importar a natureza para a cidade. Sempre existiu o jardinar na cidade. Os jardins operários tiveram enorme desenvolvimento no séc. XIX. A segunda metade do séc. XX foi destruidora do espaço urbano. Faltavam espaços para construir habitações, equipamentos, estradas … Os espaços verdes foram sacrificados nessa bulimia construtiva. Ainda hoje, em França, todos os anos, o equivalente à área de um departamento é consumida pelos estaleiros urbanos. Porém, nos últimos anos, assiste-se a uma reviravolta feliz. A ecologia, a tomada de consciência do conceito de biodiversidade, a crise económica, o envelhecimento, são um terreno fértil para as pequenas hortas e espaços de cultivo. A criação de espaços de jardinagem tornou-se uma reivindicação social. Há uma progressiva tomada de consciência das cidades e dos operadores urbanos. Percebeu-se que os jardins não eram apenas locais de passeio, de recreio, mas que permitiam mais, relações sociais, até mesmo um local de produção, podendo tornar-se um ponto de apoio para famílias em dificuldade. Grande pioneira, a cidade de Berlim, autorizou os seus habitantes a investir num espaço que durante anos fora baldio, tornando-o num gigantesco quintal de cultivo entre aglomerados de habitações. Em França, Nantes, Lyon, Paris, Estrasburgo e Toulouse, não hesitam em seguir o mesmo caminho. Natureza e Cidade não são incompatíveis. Quando bem conjugadas multiplicam a possibilidade do bem-estar contemporâneo.

10 Boas Razões para Usar uma Enxada

  1. Viver Intensamente – Numa sociedade imediatista, onde cada um corre atrás de modos de vida desajustados, tem-se a sensação do vazio. Escola da pachorra, a jardinagem ajuda-nos a relacionar-nos melhor com o tempo que dá consistência às nossas vidas.

  2. Fazer Amigos – A cidade isola; o jardim, junta. Nas hortas partilhadas, trocam-se ferramentas e conselhos com os vizinhos. Locais como o de Berlim, Prinzessinnengarten, permitem tecer relações entre as comunidades, os comerciantes, os habitantes. Trocam-se, vendem-se legumes, tomam-se refeições conjuntas. Diz o criador de um jardim numa empresa: “deu um álibi a todos para falar de outras coisas que não só do trabalho: dos morangos, das galinhas, …”

  3. Estimular o Ego – Muitas vezes utilizado em geriatria, nomeadamente em pessoas com Alzheimer, a hortoterapia, ajuda os pacientes a sentirem-se úteis. Longe da cultura estática de ver TV, colher os frutos das suas colheitas produz um efeito âncora no seu ego.

  4. Ter Vida Interior – Amanhar, regar, tirar ervas, pés assentes no terreno, olhar perdido nas courgetes, não há melhor lugar para se estar contemplativo a meditar no sentido da vida

  5. Fazer AgitProp – A origem do movimento “guerrilha verde” remonta aos anos 70, quando os habitantes de Manhattan quiseram converter um loteamento abandonado em jardim colectivo. O movimento defende o direito à exploração dos espaços abandonados. Em Todmorden, cidade do Norte de Inglaterra, antiga cidade industrial, com elevada taxa de desemprego, os habitantes uniram-se para transformar a sua cidade numa enorme horta gratuita, plantando frutas e legumes por todo o lado: janelas, passeios, largos, varandas, telhados, …

  6. Emagrecer – Lavrar, aparar, cortar, são oportunidades para perder calorias e fortalecer as coxas, abdominais e glúteos de forma mais barata e vulgar que num ginásio. Uma hora de jardinagem permite queimar 400kcal. Ao mesmo tempo, estimula as funções respiratórias e cardiovasculares. Para um beneficio máximo há que alternar a pequena com a grande jardinagem, vigiando a própria postura. Seria lamentável trocar alguns gramas por um lumbago!

  7. Alimentar-se Sadiamente – Em Rennes, utilizar o potencial dos baldios permitiu à cidade atingir 30% de autonomia alimentar. Quando se cultiva em casa, com sementes bio e limitação de infestantes, pode-se colher no ponto máximo de maturidade e de gosto.

  8. Salvar o Planeta – As plantas não se contentam apenas em mostrar as suas folhas verdes. Filtram as partículas finas e absorvem os gazes com efeito de estufa, fixando o carbono existente na atmosfera. Limita, ainda, as ondas de calor e, quando cultivadas nos telhados, melhoram a eficácia energética dos edifícios. Por fim, captando as águas das chuvas, limita o stress exercido sobre a rede pluvial em caso de forte precipitação, e assim águas poluídas nos rios.

  9. Fazer Economias – Evita repetição de gastos de produtos já existentes. É tudo aproveitado. Até os detritos!

  10. Contrariar a Mundialização – Na hora em que as maçãs viajam, por vezes, dez mil km até chegar à nossa mesa, um simples percurso doméstico parece conseguir o impossível. Em NYC, Montreal, Linkoping, Paris, quintas/hortas verticais erguem-se cada vez mais em experiências êxitosas.

* Membro do Conselho Consultivo do Cidadãos por Coimbra

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s