A poesia está na rua

A Leonor Barata (deputada municipal do CPC na AMC) representou-nos nas cerimónias oficiais da CMC dos 40 anos do 25 de Abril

 

unnamed

 

“Nasci em 1975, um anos depois da Revolução.

Nasci em Liberdade, vivi em Democracia.

Não vivi, e ainda bem, a longa noite fascista.

Não fui obrigada a passar a fronteira a salto.

Não fui torturada pela polícia política.

Não passei documentos clandestinamente, nem tenho memória do que foi a guerra colonial.

Não vivi nada disto e, no entanto, tenho em mim tudo isto.

Dos pais, dos avós, dos amigos. Dos livros, dos filmes que nos vão construindo; tecendo quem somos: na solidão individual, no compromisso cívico; na alegria fraterna de nos identificarmos com os valores de um povo.

Já vivia, mas não vivi, a Primavera de 74. No meu berço de sonhos por realizar, talvez chegassem apenas ecos: a alegria eufórica e quase ingénua de um novo mundo que outros me queriam oferecer. A madrugada da minha vida corria a par daqueles dias tecidos por madrugadas que muitos esperavam há muito para cumprir
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Ao som de melodias muitas – como muitos da minha geração – fomos crescendo, trauteando A paz, o pão, habitação, saúde, educação… Bens nossos: escola pública, serviço nacional de saúde, discutir, votar porque em tudo a nossa voz parecia contar… A liberdade estava a passar à nossa frente e cada um trazia em um graffitti que desejava partilhar publicamente.

Nasci em 1975, meses depois da Revolução e hoje aqui estou, fiel ao que me formou, acreditando na pureza e nobreza dos ideais que só mulheres e homens livres podem corporizar. Porém, a alegria de comemorar não pode deixar  margem aos que se insinuam na história para apagar, rasurar, fazer esquecer a memória, individual e colectiva. Comemorar não é um simples like facebookiano. Para nós, comemorar será sempre a marca de um revigorado encontro com os “vincos da história” fazendo meu o título de ilustre historiador.

Comemoremos pois, aqui na casa da democracia local, enquanto representantes eleitos do poder autárquico, mas perguntemo-nos igualmente o que diremos amanhã aos nossos amigos, aos nossos filhos, aos nossos pais e avós, passados quarenta anos.

Espíritos livres e politicamente responsáveis diremos a verdade. Só ela é revolucionária, dizia-se.

Diremos então que o atual  poder político se alheou totalmente dos cidadãos para quem deve governar;

diremos, que se engana quem pensa que tudo é apenas um mau momento que vivemos fruto da incapacidade de uns tantos.

Diremos, pelo contrário, que vivemos dolorosamente as páginas de uma agenda não escondida, mas antes bem clara nas suas marcas ideológicas.

Diremos, que o triunfo da mediocridade, da pirotecnia verbal, do funesto baile leopardiano entre ser e parecer são apenas os pingos de círios de uma cerimónia encenada longe dos nossos olhares e controlada de três em três meses por cinzentos funcionários que de nós, portugueses, nada sabem. Mas somos e seremos sempre mais que uma curva num mapa de excel.

Somos mais do que estrangeirismos disfarçados de linguagem técnica, ou do empreendedorístico bate punho de matriz pimba… O que é isto de ser empreendedor e proactivo quando o desemprego é uma calamidade social?

Que discurso é este que nos apresenta a crise como oportunidade de redenção por pecados passados?

Não seria melhor vê-la antes como ruptura?

Que democracia pode subsistir quando se reduzem cidadãos e famílias a números e parcelas na tabela do deve e haver?

40 anos depois venho aqui falar do meu país. Um país sem esperança e diminuído na sua capacidade de sonhar.

E sabemos bem que o sonho é a nossa projecção no futuro, é por ele que vamos.

Um país sem sonhos é um país em que o medo se instalou e tudo conquistou.

“O medo vai ter tudo , pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis.

Vai ter capitais, países muitíssimos amigos e óptimos negócios.

Heróis , o medo vai ter heróis.

O medo vai ter tudo.

Penso no que o medo vai ter e tenho medo, que é justamente o que o medo quer.

O medo vai ter tudo, quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar, quase todos a ratos.

Sim a ratos.”

Palavras de Alexandre O`Neill.

Nestes 40 anos gostava que inventassemos o mar de volta.

Mergulhar  sem medo e construir de novo um país melhor. Isto diremos aos nossos amigos, aos nossos filhos, aos nossos pais e avós. Com a “inquietação” do José Mário Branco e a força de uma heroica de Lopes Graça. ”

 

Abril, 2014, Leonor Barata

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s