Choupal

PORQUE RAZÃO O CHOUPAL NÃO DEVE SER GERIDO PELA CÂMARA

por Miguel Dias

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DE quatro em quatro anos, por altura das eleições autárquicas, lá voltam as eternas questões sobre o abandono e mau estado da Mata Nacional do Choupal e de quem deveria ter a competência de a gerir. A resposta, até há bem pouco tempo, era, a meu ver, bem simples: o ICNB. A criação do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e Florestas), ou seja, a fusão do ICNB com a Direção Geral das Florestas, torna a questão mais difícil de avaliar.

O abandono e o desinvestimento no Choupal por parte dos três organismos estatais que o tutelam são óbvios há muitos anos. Duas pontes pedonais fechadas e outras tantas que constituem um autêntico perigo para quem nelas circula, casas de banho imundas e terceiro-mundistas, falta de limpeza de caminhos e da mata, equipamentos degradados e velhos, instalações abandonadas e subaproveitadas. O INAG (Instituto Nacional da Água) há quase uma década espera a verba para alcatroar a estrada do Centro Hípico, desconheço se o IDPJ (Instituto Português do Desporto e da Juventude) tem tido cabimento orçamental para equipamentos desportivos no Choupal nos últimos anos, e o ICNF/ICNB há bem pouco tempo nem orçamento para o arranjo das suas máquinas agrícolas tinha.

Neste contexto de desinvestimento por parte dos organismos centrais do estado, a ideia de uma gestão da Mata pela Câmara Municipal, partilhada ou exclusiva, parece fazer todo o sentido. A proximidade do poder local garantiria um outro tratamento e sobretudo um “carinho” não existentes. Afinal os utentes são votantes locais… No entanto, levanta-se uma questão deveras importante: será a câmara competente para o fazer? Está a câmara preparada, técnica e materialmente, para gerir o Choupal? Pessoalmente, duvido! Gerir o Choupal não é gerir um qualquer parque ou jardim municipal. O Choupal é uma mata, e são sendo estatutariamente uma área protegida, o Choupal alberga espécies cada vez mais raras como a raposa, o gineto, a lontra, o pica-pau etc. O Choupal é pois uma floresta cheia de segredos bem e propositadamente escondidos da maioria dos seus utentes. Gerir o Choupal implica, por isso, um equilíbrio delicado entre os interesses dos utentes “humanos” (lazer e desporto) e a natureza. Este equilíbrio já hoje está em perigo com o ICNF a valorizar a componente florestal em detrimento da biodiversidade, à qual subjaz naturalmente a ideia de poupanças. Explicitando, a influência dos técnicos ligados à vida selvagem foi na prática reduzida. O resultado? A desmatação impensável de áreas do Choupal em pleno período de nidificação como aconteceu há bem pouco tempo.

Voltando à questão de quem deve gerir o Choupal, no caso particular da Câmara de Coimbra levantam-se outras questões para além da competência. Desde logo, o executivo PSD/CDS continua a patrocinar a solução da construção de um viaduto sobre o Choupal (o PS também…), que amputaria a mata em 5% da sua área e teria consequências nefastas e irreversíveis para a sua flora e fauna. Em segundo lugar, este executivo não fez para merecer que lhe seja confiada a gestão da mata: nunca se preocupou em criar acessos pedonais ao Choupal (aceder ao Choupal pela Avenida Fernão Magalhães é uma autêntica aventura, com crianças quase uma irresponsabilidade), não há qualquer transporte público que sirva a Mata, permite o desmantelamento dos carros da queima das fitas às portas da Mata, fugiu sempre às suas responsabilidades no alcatroamento da estrada do Centro Hípico, mantém um estacionamento oficial do Choupal num abandono total. Em suma, ao longo de dez anos não há uma única ação ou iniciativa voluntária da câmara para melhorar o estado da mata ou promover a integração da mata na vida da cidade. A Câmara Municipal só conhece o Parque Verde.

Qual então deveria ser o papel da Câmara Municipal no que respeita ao Choupal? Mais do que assumir responsabilidades na gestão da mata, é dever da Câmara exigir às entidades supracitadas que assumam as suas responsabilidades e compromissos. A Câmara tem que revindicar, mas ao mesmo tempo dar o exemplo e fazer o seu trabalho de casa. Não basta de quatro em quatro anos se “chocar” com o estado do Choupal ou marcar presença no Choupal na figura do seu presidente no dia da árvore para ficar na fotografia. E que tal ajudar o Choupal de forma desinteressada sem ser em tempo de eleições?

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