Vale sempre a pena quando a vontade democrática não é pequena

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Boaventura de Sousa Santos

Quando em 1996 criámos a Associação Pro-Urbe, o nosso objetivo era desenvolver em Coimbra uma dinâmica de participação ativa dos cidadão e das cidadãs no poder local (democracia participativa) que complementasse o governo da cidade constituído legitimamente com base em partidos e eleições (democracia representativa). Porquê a necessidade desta complementaridade? Porque o governo municipal se afastava cada vez mais dos interesses, anseios e aspirações dos e das conimbricenses, e respondia com cada vez mais desvergonha e menos transparência aos interesses dos empreiteiros e imobiliários. A cidade ia-se descaracterizando ante os nossos olhos com violações sucessivas do plano diretor, quando este existia; com a obsessão da nova construção em detrimento da renovação urbana numa cidade com um centro histórico tão notável; com a violação dos limites da densidade (já de si exagerada) de construção autorizada mediante a alegada corrução dos serviços (algo que o Ministério Público se recusava a investigar); com a construção de grandes superfícies comerciais praticamente dentro da cidade com a consequência, facil de prever, da asfixia do comércio tradicional; com o desperdício total da tradição cultural universitária através de um populismo rasteiro que opunha ranchos folclóricos e bandas de música ao teatro, à poesia, à ópera e à música erudita e de jazz, como se não houvesse lugar para todos; com a degradação dos espaços, dos transportes públicos e, sobretudo, dos jardins que durantes décadas foram uma atração da cidade; com uma displicência total em relação às questões ecológicas, o que viria mais tarde a desembocar na defesa ignorante e tonta da co-incineração em Souselas; enfim, com uma miopia saloia que parecia envergonhar-se da universidade em vez de se orgulhar dela. Por tudo isto, o imaginário de “Coimbra é uma lição” foi-se degradando perante o país, e Coimbra foi-se transformando na lição do que não se deve fazer.

Era preciso fazer alguma coisa. Não foi fácil. Digo agora pela primeira vez publicamente que fui vítima de ameaças pelo telefone nos momentos em que nos insurgimos com mais veêmencia contra os empreiteiros, os quais, aparentemente, tinham sequestrado o Executivo municipal. Foi particularmente difícil no periodo em que a Câmara era liderada pelo atual candidato, Manuel Machado. Fomos atacados por zelosos dirigentes políticos (um deles mais tarde condenado por crime de gestão danosa), demonizados por pretendermos subverter a democracia local, quando o nosso objetivo era fortalecê-la e pôr a cidade a salvo da rapina e da corrução. Pessoalmente, a crítica que mais me ofendeu pela sua baixeza foi terem inisinuado que eu usava a Pro-Urbe como trampolim para chegar à Câmara, “porque o que ele quer é o poleiro”.

Neste últimos vinte anos pensei várias vezes que tínhamos perdido a guerra (desculpe-se-me a incoerência, já que sou contra as guerras) e que a cidade jamais poderia recuperar de tanto dano, tanta mediocridade autárquica, durante tanto tempo. O Movimento Cidadãos Por Coimbra veio fazer renascer em mim a esperança. Se ele tiver êxito, como veementemente espero, aqueles que, como eu e muitos outros, lutaram no passado por uma cidade participativa, criativa, arrojada, inventiva, capaz de um futuro à altura das suas tradições, irão para a rua com uma alegria incontida e um cartaz colado no coração: Perdemos uma batalha mas ganhámos a guerra.

Vale sempre a pena quando a vontade democrática não é pequena.

Boaventura de Sousa Santos
Depoimento para o Movimento Cidadãos Por Coimbra
14 Setembro 2013

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