O meu país

Graça Jegundo

fabrica-cerveja

O meu País está deprimido, deslaçado, dormente. O meu País precisa mesmo de um resgate e de uma revolução. Um resgate das malfeitorias que o amarfanham e uma revolução que o anime a ver um futuro limpo, digno e justo.

O meu País, com a terra e o mar e o povo dentro, não quis a grandeza falsa mantida na ditadora segregação e cegueira, mas também não quer a mesquinha pequenez a que o reduzem no mundo global das quantidades.

O meu País é de muitas qualidades, modeladas no mais longo traçado histórico, com raízes vivas na minha cidade, e não pode ser despido delas em nome de qualquer imperativo dominante, ditado por supostas leis da marcha civilizacional.

O meu País precisa de fincar os alicerces em si e de se sacudir de inferioridades e dependências, não para se fechar em políticas autistas e egoístas, mas para se valorizar e apresentar mais rico nas trocas justas e nos tratos cosmopolitas de sua vocação.

E então nós, os do chão lhano e livre do meu País, temos que preparar esses alicerces, garantir que sustentam equilíbrios e valores próprios, que firmam e elevam genuínas riquezas, impossíveis de anular com mágicos truques das forças imperiais.

O que podemos fazer, sem alarde, mas com firmeza, é resgatar e revitalizar cada pedacinho do meu País, resistindo e rompendo as teias com que querem tolher o projeto democrático a que se tinha proposto. Há sempre margens de autonomia para usar, se o rio for de vontade, e as autarquias têm-no demonstrado, ainda que algumas se tivessem configurado como oligarquias, entregues a núcleos de interesses pouco públicos.

Quase quatro décadas de aprendizagem da democracia permitem pensar que é legítimo esperar mais para o meu País, pois em todas as suas aldeias, freguesias, concelhos haverá hoje uma racionalidade, ainda não muito conhecida, mas que se alimentou de saberes e cidadania e que é suposto não se deixar desprezar.

As eleições autárquicas sempre foram as que moveram menos entusiasmo geral, tendo em conta o pouco que parecia estar em jogo, mas hoje, desta perspetiva autonómica de base e tirando o seu impacto direto na macropolítica partidária, elas serão fundamentais pelo impacto real que podem ter na vida real das populações e, em eco, na vida real do País.

O meu País é pequeno e não se quer fragmentado, sendo importante uma macro regulação que cuide da equidade, mas fá-lo-á maior que cada pedacinho faça o melhor por si, descobrindo e desenvolvendo soluções positivas e, sobretudo, que cada pedacinho assuma a sua vontade e participe com afinco.

As leis são gerais, mas os filtros da sua implementação são o mais decisivo da ação pública e esses dependem mesmo dos contextos. Em qualquer área económica e social é importante esta “tradução” autárquica: por meio de disposições legais locais ou por simples modos de conceber e executar as políticas, as autarquias podem fazer a diferença entre uma solução mais ou menos justa e eficaz. Serão inúmeras as estratégias de intervenção ou de influência dos órgãos autárquicos, por exemplo, na aplicação das determinações políticas na saúde, na educação, na assistência e segurança social, nas estradas… O que é preciso é vontade e inteligência. E claro, que o jogo não seja antes de tudo partidário, num tabuleiro viciado, em que o interesse público, e muito mais o interesse público local, seja apagado.

Hoje, há cada vez mais movimentos independentes de cidadãos no meu País, descontentes com este jogo partidário, claro, mas também muito mais cientes das suas responsabilidades e capacidades no campo das dinâmicas coletivas, fruto da aprendizagem democrática.

Este dado é já por si um indicador de vida no resgate e revolução do meu País, mas será muito mais sólido se deixar bem vincado um outro modo de estar na vida democrática que, além de valorizar as eleições e o processo de representação política, incremente e torne regular a participação cívica direta.

O mais importante destes movimentos, como o movimento Cidadãos por Coimbra, é o não contestarem o sistema partidário, mas apenas a sua forma degenerada, fechada em forças centrípetas, que lhe retira qualquer legitimidade representativa.

A aposta maior destes movimentos, e que serve o resgate e a revolução necessárias ao meu País, é pois o defender e acreditar na democracia participativa como complemento e regulação da democracia representativa. Há quem logo adiante não ser este um traço cultural do meu País, mas a cultura é um produto e não um estigma, logo constrói-se. Como dizia o poeta, “o caminho faz-se andando”, ou seja, a cultura de participação faz-se participando. Basta que se criem as oportunidades, se percebam os sentidos e se valorizem os contributos.

O meu País pode pois contar com o meu Concelho, umbigo da nacionalidade, para se reafirmar e renascer. O movimento Cidadãos por Coimbra é também um movimento de cidadãos pelo meu País.

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