Feira do Livro de Coimbra no Futuro

© Josef Koudelka/Magnum Photos

© Josef Koudelka/Magnum Photos

Participo há 20 anos na Feira do Livro de Coimbra.
Iniciei a minha participação na Feira com a esquecida (injustamente) Fora do Texto, sucessora da mítica Centelha.
Nesse primeiro ano, a Feira do Livro de Coimbra realizava-se na Praça da República, em pavilhões independentes e em círculo. Os livros bastavam para a festa se fazer. A centralidade e os anos da Europa como investidora em Portugal ajudavam a Festa.

Anos mais tarde, estimulados pelo meu entusiasmo por Coimbra e pelos livros, convenci o saudoso Manuel Hermínio Monteiro, da Assírio & Alvim, e o André Jorge, da Cotovia, a representá-los em Coimbra, desde que tratassem de um bom programa cultural a realizar durante a Feira: Eunice Munoz, António Guerreiro e esse extraordinário momento de António Gancho, na Casa das Caldeiras, numa Leitura dos seus poemas, foram algumas das actividades. Quase uma revolução poética em Coimbra.
Mas na Praça 8 de Maio e na Rua Pedro Monteiro moravam inquilinos para quem a cultura se resumia a trovas e umas guitarradas (que agora desejam voltar, como se o tempo alguma vez voltasse para trás), e a Feira era uma organização corporativa de valores provincianos para quem a investida alfacinha desse ano prodigioso era para derrotar.
E ganharam.
Até ao modelo que hoje a Feira apresenta houve sempre da minha parte muita resistência, alguns conflitos, e um enorme desencanto por ver morrer os livros em papel sem honra nem glória.
É a vida, dizem. Não, é o que escolhemos para a vida da cidade de Coimbra.
O diletantismo em vez do trabalho. A preguiça no lugar da ousadia. O velho ocupando o lugar que pertence ao novo.

Justo é reconhecer o trabalho e o empenhamento pessoal da vereadora da cultura da Câmara Municipal de Coimbra, no ano de 2012.
Foi uma mudança positiva na imagem da Feira, mas foi apenas o início de um trabalho a pensar no futuro, que esta edição de 2013 não confirma.
Durante duas décadas a programação cultural nunca melhorou. Durante duas décadas ninguém dialogou com o futuro (quem tem medo das novas tecnologias?)
Por isso, o modelo está longe de estar consolidado. Necessita ambição e de atrair novas e dinâmicas editoras (ninguém se preocupa em envolver a Almedina, ou a Tinta da China, por exemplo?) e grandes autores na Feira, numa aposta clara no livro e na recompensa que os leitores de Coimbra e da zona centro merecem pela sua visita.

A Feira do Livro de Coimbra tem potencialidades de se transformar na segunda grande Feira do país: pela História do Livro em Portugal (que teve nos crúzios de Coimbra um pólo de produção determinante), pela Universidade; pela passagem dos grandes nomes literários pela cidade fixando-a nas mais diversas formas e estilos literários que Eugénio de Andrade recolhe no livro Memórias de Alegria; pela sua localização, e por não existir um acontecimento cultural de massas nesta cidade que é necessário reinventar.

A Leitura não vai acabar, nem os autores, nem os seus fiéis leitores.
Pensar no futuro deles é a nossa obrigação. E a Feira do Livro de Coimbra deve ser feita em sua honra. Com entusiasmo e com o melhor do nosso trabalho.

Elsa Ligeiro – Editora e Produtora Cultural

[texto lido no debate “A Cultura do Poder e o Poder da Cultura”, 24 de Junho de 2013]
Anúncios

One comment

  • Nos últimos dois anos assistiu-se à decadência da Feira do Livro. Deixou de ser um dos eventos mais importantes da cidade para se tornar em uma feirinha agregada à do artesanato.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s