Ecos de Cidadania [4]

A minha aldeia, a minha freguesia, a minha cidade, o meu concelho, o meu país – ecos de cidadania

Graça Maria Jegundo Simões

coimbra

O meu concelho

Até agora, nunca tinha refletido no conceito. Tudo estava arrumado entre o conteúdo histórico – os concelhos medievais – e o carimbo administrativo, a inscrever nos diversos instrumentos de enquadramento da identidade de cidadã – naturalidade e residência no concelho de Coimbra.

Agora sim, num posicionamento e numa perspetiva genuinamente política, ou seja, perante o desafio e a necessidade de se refletir sobre as sinergias complexas e globais da vida em sociedade e sobre as formas de garantir que ela se faça a favor do interesse comum e coletivo, animou-se este conceito de um significado bem mais forte e operacional.

O meu concelho, como todos os concelhos do País, toma o nome da sua cidade, a partir da qual se organizou a vida pública em formato urbano e num registo de autonomia, simbolicamente datado em 1111, ano do seu 1º Foral.

Esta organização urbana foi fundamental para superar a organização feudal e os laços de vassalagem, mas também introduziu uma diferenciação muito vincada de desenvolvimento e um fosso social e cultural entre o campo e a cidade, numa relação que prolongava algum sentido de vassalagem, ou pelo menos de inferioridade do meio rural. Ser do campo era um estigma bem presente na minha geração, quando se escapava à segregação “natural” de ir aprender um ofício ou estudar numa escola técnica e se ingressava no “liceu”.

Abril libertou do estigma simbólico e trouxe aproximações reais, com um nivelamento dos níveis de conforto e uma uniformização das características sociológicas, mas as opções de economia política arruinaram o campo tanto como a cidade, retirando-lhes a energia criadora e fazendo crer que o novo mundo tinha outros centros e que o papel das terras e das pessoas seria absolutamente passivo e sem importância.

O meu concelho está agora no ponto em que se cruza a consciência do erro dessa ideia errada com a urgência de uma ideia nova e certeira, que resgate e recupere o poder autárquico, num sentido de autonomia cidadã, e aposte numa real solidariedade e subsidiariedade territorial, que una finalmente o campo e a cidade e faça cumprir um modelo de desenvolvimento verdadeiramente inclusivo de todas as suas riquezas, pondo-as em relação e potenciação mútua.

Cada freguesia e cada aldeia devem sentir e prezar a diferença de pertencer a este Concelho, tendo mais do que o “nome” para se notabilizar. Coimbra é a cidade – baixa, alta, periferia fidalga, arrabaldes populares…Mas a cidadania coimbrã está também nos pinhais, pastos e pauis, nas vinhas, hortas e arrozais…

Num tempo em que o voltar à terra é uma espécie de moda, uma solução quase “chique” para a crise doméstica e para o enjoo do trabalho intelectual, com hortas urbanas e hortas suspensas em varandas, há que refletir, com conhecimento, sobre a viabilidade e virtude de uma nova organização económica que efetivamente nos religue à terra, de forma sustentada e estrutural.

O meu concelho tem duas vantagens para ensaiar e explorar caminhos novos neste paradigma: tem um centro urbano contido e até retraído, considerando as opções industrial e de serviços; tem uma moldura rural próxima, com infraestruturas essenciais de conforto e comunicação e sem forças dominantes de exploração. Conceber uma política local que favoreça a exploração articulada e sustentada dos recursos naturais não será uma utopia demagógica ou visionária, se for concebida e construída com a participação dos pequenos proprietários, a maioria já desistente desses seus bens, mas no fundo sempre aguardando por um resgate. Aumentar a produção, numa lógica mais económica e de satisfação de mercado, ou numa lógica mais social de satisfação das famílias e das pessoas, parece um objetivo inatacável e de incontestáveis vantagens. Mesmo não fazendo contas, percebe-se o impacto que tal terá sempre e também na vida coletiva, pela tradução em receitas públicas a devolver em bens públicos.

A economia não é uma teoria e também não é uma ciência exata, o que hoje se comprova e vai desautorizando muitos discursos dominantes, mas também autoriza a pensar o improvável e o desejável. Importante é que neste pensar se encontre o necessário conhecimento com o justo interesse público. No movimento Cidadãos por Coimbra há-os capazes e com vontade nestas duas frentes que são determinantes para uma boa política.

A economia, por outro lado, não tem que ser o avesso da cultura nem um mal necessário. A par com o resgate da ligação à terra, há que fazer o resgate da ligação ao trabalho e do seu sentido emancipatório, numa relação de subsistência, mas também de criação e fruição. Pensar a política do Concelho de um lugar verdadeiramente cultural exige que se extravase desse domínio estritamente cultural e que se ouse enfrentar a complexidade, tanto como os preconceitos. E um deles, recorrente quando se fala de política autárquica, é o das teias maiores do nacional e supranacional, que determinarão as políticas e esvaziarão qualquer vontade de fazer diferente. Mas no mundo complexo de hoje, em que tudo se encontra ligado, há outra leitura inversa a fazer – tudo o que fizermos na base flui e influi sempre no topo. Das pequenas mudanças podem obter-se grandes ganhos e Coimbra – no seu rico território – pode dar mais lições e mostrar caminhos novos.

No movimento Cidadãos por Coimbra, além do conhecimento e ativismo, há uma liberdade de mandos e uma frescura de modos que favorecem e ampliam estas possibilidades.

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