Ecos de Cidadania [3]

A MINHA ALDEIA. A MINHA FREGUESIA. A MINHA CIDADE. O MEU CONCELHO. O MEU PAÍS.
– ecos de cidadania

Graça Maria Jegundo Simões

A MINHA CIDADE

A minha cidade é douta e finge-se neutra na gramática, mas toda ela se veste de rainha, nobre e altiva, do alto da sua coroa universitária. Amplamente reverenciada e cantada, suspensa em passados e ideais românticos e saudosistas, deixou descurar os assuntos materiais e mirrou na sua dimensão económica. As chaminés industriais chegaram a pontuar a paisagem, mas sempre de forma retraída, quase envergonhada, não chegando a interferir decididamente na partilha social entre camponeses e empregados, nem mesmo a configurar uma acumulação proeminente de capital. Ainda assim, a era pós-industrial vive-se com reforço de depressão, simbolicamente concretizado por algumas chaminés abandonadas e imensas instalações em ruínas, mas concretamente vivido pelo vazio acrescentado no emprego e pelo absurdo acrescentado na gestão de alguns negócios. Nesta era pós-industrial, a minha cidade continua muito alheada do desenvolvimento material, gerindo o descontentamento com a escassez de recursos e, sobretudo, de ideias. 

No entanto, vestem-lhe mantos imperiais do conhecimento e da saúde, tão desbotados e tão rotos, que vincam ainda mais a sua pequenez e roçam o ridículo.

Sim, a minha cidade tem tudo para ser luminosa, rica e culta, se não se deixasse seduzir e enganar por políticas velhas e viciadas de marasmos, boas apenas para sustentar poderes pequenos de grandes famílias, acoitar favores e favorecimentos, tecer redes de interesses imobilizadoras de quaisquer impulsos ou sopros de genuína mudança. O que surge de criativo é logo domesticado e raramente “sai à rua” ou consegue interpelar, como seria a sua vocação, formando, ao contrário, nichos internos e elitistas, em que a identidade continua a fazer-se por relação com os clãs da aristocracia profissional – médicos, advogados e professores doutores.

Sim, a minha cidade precisa de se dar conta que a sua riqueza potencial é muito mais ampla e diversa e que não está apenas nos casulos universitários ou nas enxurradas estudantis, nos grandes negócios ou nas grandes obras.

A riqueza está nas ruas, no povo que lá vive e circula, nas suas aptidões e aspirações, nas suas necessidades e generosidades, nas suas diferenças e divergências.

A riqueza está na sua história, claro, mas não apenas num sentido de produto turístico (que ultimamente até tem empacotado melhor), pois a evocação banalizada e a memória como tradição mecânica e mercantil acentuam o conformismo (Catroga, 2011); a história e a memória são riquezas culturais e identitárias, quando insertas e modeladas na densidade cultural do lugar e no “restolho do tempo”(idem).

A riqueza está sempre na natureza, que na minha cidade é também generosa, com rio fiel e amansado a seus pés, a espelhar as casas das colinas, e com moldura de verde em todos os horizontes, dando conta do seu tamanho maneirinho e da proximidade das suas fronteiras rurais.

A riqueza estará no integrar destas fronteiras na sua identidade, assumindo uma dimensão híbrida de “rururbanidade”, sem complexos de provincianismo e inovando sinergias sustentadoras e vivificadoras de uma outra organização económica, social e cultural; o tempo das grandes metrópoles, com vantagens nos níveis de conforto, ficou para trás, tal como o tempo da indústria das chaminés.

A sua riqueza estará então, e sobretudo, na forma de gerir e pôr a girar as suas riquezas, atraindo atividades económicas que se ajeitem ao passado e aos futuros, de forma sólida e inteligente, com conhecimento e participação, que espevite o risco e os desafios da inovação tecnológica, que valorize os talentos que fabrica nas academias e funcione como íman para outros.

Esta riqueza, é evidente, é do foro político e ativa-se com outras políticas públicas e com outras formas de ação pública, que além de atraírem e mobilizarem as condições de desenvolvimento, induzam uma outra forma de estar na cidade, que sustente este desenvolvimento e cresça com ele, ou seja, uma forma mais aberta ao novo, ao diferente, sem cerrar fronteiras, genuinamente hospitaleira e sem preconceitos.

O movimento de “Cidadãos Por Coimbra” tem um hipocentro de pessoas com recursos de saber e vontade para operar esta viragem, mas é necessário que o abalo alastre e desmorone alguns tiques e vícios mais acomodados, naturalizados por aquele jeito antigo tão elitista e altivo.

E o primeiro muro a eliminar é o da minha cidade com a minha freguesia e com a minha aldeia.

E a primeira bandeira a erguer, do alto da “qualidade do lugar” (Martins, 2013), é a bandeira do território concelhio e da sua autonomia emancipatória.

Martins, C. (2013). A qualidade do lugar. In http://cidadaosporcoimbra.com/textos-depoimentos/

Catroga, F. (2011). Os passos do Homem como Restolho do Tempo. Coimbra: Almedina

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