Ecos de Cidadania [2]

A MINHA ALDEIA. A MINHA FREGUESIA. A MINHA CIDADE. O MEU CONCELHO. O MEU PAÍS.
– ecos de cidadania

Graça Maria Jegundo Simões

 

2- freguesia

A MINHA FREGUESIA

A minha freguesia tem ecos mouros no nome, mas veios arqueológicos mais distantes, com passadas celtas e romanas. No entanto, a sua gestação e desenvolvimento sempre se fizeram longe das vias mais importantes – romanas, medievais, fluviais e terrestres – o que se reflete no seu cariz persistentemente rural e num povoamento disperso de pequenos aglomerados, até há poucos anos ligados apenas por carreiros e estradas de terra batida e calhau, muitos sem eletricidade e muito menos água e esgotos. A minha freguesia é das mais distantes da sede do concelho, e também a mais a sul, mas são pouco mais de 12 quilómetros entre as sedes.

Ao “Estado Novo” servia bem esta textura social fechada, com mandos e obediências partilhados entre a “Casa Paroquial” e a “Casa Senhorial”, na qual se enleavam laços tipicamente feudais com outros mais burocráticos da rede administrativa local.  

Neste quadro fechado, a identidade da freguesia foi-se modelando sobretudo nas ligações familiares, em que a endogamia era frequente, mas simultaneamente contrariada pelos “casamentos entre aldeias”. A ligação à sede da freguesia era feita através dos momentos simbólicos de vida mais importantes, concretizados em atos religiosos e de festa, familiares ou comunitários, que se assumiam e divulgavam na rua principal, com a bênção dos moradores que sempre assomavam às janelas, e desaguavam na igreja matriz, para a bênção católica. A estes atos de festa sempre se juntou, e juntam, os atos fúnebres, e à igreja matriz, o único cemitério da freguesia.

Abril rejeitou os mandos, abriu e alcatroou estradas, trouxe autocarros, eletricidade e saneamento para todos. Trouxe eleições democráticas e acrescentou identidade pela chamada às urnas. Mas sangrou a Terra das sinergias próprias e deixou-a suspensa de modelos distantes: o consumo nos shoppings, o mercado escolar, o mercado eleitoral…

O nível de conforto elevou-se e nivelou-se pelo urbano, mas vincado o perfil periférico, a população diminui, as escolas fecham, os assomos de serviços retraem-se, como a farmácia, a extensão do centro de saúde, os correios…

Restam dois traços dissonantes deste modelo exteriorizado, raízes de uma outra natureza mais humana: a natalidade, que, apesar de tudo, não é das mais baixas no concelho; a solidariedade, fermentada nas proximidades e ancorada no sistema paroquial, que alargou e solidificou uma rede de apoio social, e que do adro da igreja e da sede de freguesia se estende e assiste as duas franjas mais vulneráveis da população – as crianças e os idosos.

A minha freguesia é, pois, daquelas que reserva um potencial alternativo de futuro, pois manteve-se virgem da importação e ocupação densificada e descaracterizada de uma periferia urbana e, simultaneamente, mantém vivo um ADN de ruralidade, pronto a ser resgatado num novo paradigma civilizacional, em que a qualidade de vida não será métrica, nem acumulada, nem concentrada.

Mas a minha freguesia não pode continuar a dispensar-se de exigir paridade no acesso à cidadania, com uma cobertura territorial total dos direitos básicos constitucionais – habitação, saúde, educação…

Um poder autárquico interessado e empenhado no serviço público pode apoiar, guiar e liderar ações que concretizem estes direitos, articulando e revivificando o associativismo de cada aldeia, valorizando e legitimando as instituições particulares de solidariedade, exigindo da tutela a parcela legítima dos serviços públicos, dando qualidade e pertinência à participação cívica e coletiva.

E, acima de tudo, um poder autárquico inteligente vai sempre fugir de bairrismos e de identidades retrógradas, levando a freguesia a um diálogo de mutualidade com os outros territórios e, sobretudo, com a sua cidade. A cultura, enquanto dimensão global de alimento para o espírito, não deverá ser consubstancializada apenas em trocas materiais concretas, como folclore e artesanato, mas em parcerias construtivas e criativas com a mesma mutualidade na produção e na fruição.

A minha freguesia, terra de urdideiras e tecedeiras, merece uma dinâmica de desenvolvimento que abrace e mobilize as forças nativas, da economia e da cultura, mas que corte com tiques passadistas de subserviências e dominações e refresque o modo de fazer política, servindo-a como um bem coletivo, aberta a todos e ao serviço de todos, urdindo um território sustentável e solidário, com fronteiras de inclusão. Esta postura livre e generosa só é possível, hoje, fora das interesseiras teias partidárias, ou seja, com gente que apenas se compromete com a sua Terra, com a sua Freguesia… Esta postura livre e generosa só é possível, hoje, com o movimento Cidadãos por Coimbra.

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