A Coimbra que eu quero

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José Manuel Pureza

Entre as suas cidades invisíveis, Italo Calvino fala-nos de Trude, a cidade igual a todas as cidades. Descreve-a assim: “os subúrbios que me fizeram atravessar não eram diferentes dos outros, com as mesmas casas amareladas e esverdeadas. Seguindo as mesmas setas passava-se pelas mesmas alamedas das mesmas praças. As ruas do centro mostravam mercadorias, embalagens, letreiros que em nada mudavam.” E conclui: “O mundo está coberto por uma única Trude que não começa nem acaba, só muda o nome no aeroporto.”
Custa dizer, mas Coimbra é Trude cada vez mais. Uma cidade esvaziada no seu centro e espalhada caoticamente como uma mancha de óleo sobre arrabaldes que deixam de ser campo sem se tornarem cidade. Uma cidade que não sabe o que quer ser e que vai sendo o que todas as outras são também, sem chama, sem qualidade e sem sentido. Uma cidade que fica aqui mas poderia ficar em qualquer outro lugar sem diferença.
É assim não porque tenha que ser mas porque esta Coimbra-Trude é há tempo demais refém de uma governação medíocre que não quer – nem sabe – ter uma ideia, um projeto, um desígnio para esta terra e para a sua gente. Chegou a altura de darmos o peito às balas por uma Coimbra que se destrudize. De marcarmos uma linha vermelha no chão: a de que não suportamos menos do que ser uma cidade de qualidade e de densidade europeia em todas as suas dimensões, da habitação aos transportes, do planeamento urbano à oferta cultural, do turismo às infraestruturas. De afirmarmos uma visão estratégica: colocar no centro da estratégia de afirmação nacional e internacional de Coimbra o setor criativo – a cultura e as artes performativas, visuais e do digital, a ciência e a engenharia, as indústrias de base tecnológica e as profissões ligadas ao conhecimento, a música e a publicidade, a arquitetura e o cinema, a escrita e o design, a rádio ou o software. E de, no governo da cidade e na sua vida do dia-a-dia, resgatar o património de rutura dos cânones e a cultura de exigência que mais diferencia esta cidade das demais.
A Coimbra que eu quero é essa. E não vou ficar à espera que ma construam. Construi-la-ei com quem não se resigna à gestão habilidosa do que está. Venham mais cinco, venham mais mil, e construi-la-emos em conjunto.

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