“Por que é que inventámos as cidades?”

josereis[Discurso de José Reis de aceitação de candidatura à Assembleia Municipal de Coimbra
proposta pelo Movimento Cidadãos Por Coimbra. Jornadas Cidadãs de
Coimbra, 28 de abril de 2013]

Quero dizer-vos que me sinto muito honrado com a indigitação para encabeçar a lista de candidatos à Assembleia Municipal proposta pelo movimento Cidadãos Por Coimbra. Aceito-a de alma aberta e com forte empenho. E agradeço-vos a confiança.
Há muito que penso três coisas que neste momento me motivam pessoalmente e que creio que compartilho com todos vós. A primeira é que Coimbra, a cidade, a economia que aqui se foi desenvolvendo nas últimas década, a história e o lugar exemplar desta terra neste país, as suas instituições e organizações, a vida que aqui existe, tudo isto, vale muito mais, incrivelmente mais, do que a representação política, as lideranças políticas, ou a ação política que temos tido em Coimbra. Coimbra vale muito. Coimbra merece que afirmemos o seu valor.
Coimbra vale muito mais que a política pobre e repetidamente empobrecida que temos tido localmente. Coimbra vale muito.
A segunda coisa que me motiva é a convicção que tenho de que uma cidade, uma cidade como a nossa, é um dos lugares mais apropriados para recriarmos, reinventarmos, robustecermos a democracia. Sobretudo quando sabemos – como sabemos nos tempos que correm – que a democracia está diminuída e corre risco sério, e que é preciso um exigente regresso à noção de que é com a democracia, é com uma democracia rica, mobilizadora, criadora de soluções que ultrapassamos os tempos obscuros que vivemos. A democracia local é a pedra basilar de uma democracia plena, da democracia como fonte de soluções. E a isto acresce que Coimbra, muito em especial, precisa de erguer essa bandeira, precisa mesmo de ser exemplar para mostrar a sua recusa, a sua indignação, com soluções passadistas, amorfas, soturnas, quase próximas da indigência que surpreendentemente nos propõem. E pôr em cima disso tudo uma visão progressista, participada, inconformada, criativa, mobilizando todas as
competências e capacidades. Foi por isso que todos achámos que era preciso que os cidadãos – enquanto tal, enquanto pessoas radicalmente livres, enquanto detentores de direitos e de capacidades – ocupassem o seu lugar na cidade, na polis, no lugar próprio onde a sociedade é sociedade plena. É isso o que este movimento, o nosso movimento, significa.
A terceira coisa de que estou profundamente convencido é que o movimento Cidadãos por Coimbra tem sido irrepreensível, tem sido verdadeiramente exemplar, na forma como se formou, como trabalhou e chegou aqui. Temos estado a fazer as coisas bem. Têm estado a fazer as coisas muito bem, aqueles que (muito mais do que eu) planearam esta ideia, juntaram forças, consolidaram ideias, convidaram a cidade a ser parte deste projeto. Acho que todos têm sido profundamente genuínos, generosos, inteligentes, capazes. Agrada-me particularmente – e tomei isso como uma condição pessoal para a minha adesão, como aliás fiz em altura passadas, em que tal não aconteceu – que este movimento tenha começado por se dirigir a todos os partidos de esquerda (ao PS, ao PCP e ao BE) e lhes tenha dito, em audiências expressamente solicitadas para o efeito, que lhes propúnhamos a convergência unitária de todos eles, em nome da cidade, numa candidatura de alternativa à qual daríamos os nossos
nomes e os nossos saberes. O PS e o PCP recusaram e eu quero aqui dizer (formal e solenemente, se me permitem o exagero e para que não restem dúvidas) que com esta alusão encerro qualquer outra intervenção minha sobre o passado ou sobre as outras candidaturas. A partir de agora, falarei, falaremos, do futuro da cidade, dos contributos que formos capazes de dar para soluções progressistas, para uma visão positiva de Coimbra. A única autoridade moral que procuraremos e reivindicaremos intransigentemente é a que resulta de nos concentrarmos no discurso e na ação generosa, em nome da cidade. Este será o meu código de ética para a forma de intervir eleitoralmente nas eleições autárquicas. E acho que é este o código genético deste movimento: falar
positivamente, congregar vontades, lançar contributos sólidos; não ser parte de discussões sórdidas sobre os outros ou sobre passados inúteis. Com os que tenham uma visão progressista para a cidade convergiremos certamente. E apenas nesse sentido, no sentido de uma cooperação genuína e progressista, eles nos ocuparão o espírito. Sou universitário e dou muito valor à relação entre a Universidade, os universitários e a cidade. Como é óbvio. Estou a lembrar-me de universitários da democracia que se empenharam numa participação progressista na vida da cidade e na assembleia municipal. Joaquim Romero Magalhães, meu professor e colega da Faculdade de Economia, ou Jorge Veiga, por quem tenho grande estima. Mas lembro-me muito de desde bem cedo (em artigos no Diário de Coimbra, no tempo em que ainda havia elétricos) Boaventura de Sousa Santos se inquietar com Coimbra, ousar fazer propostas, intervir ativamente. E a estes posso juntar os nomes de José António Bandeirinha, Carlos Fortuna, Abílio Hernandez, gente que tem tido sempre Coimbra como inquietação e que se dedica a identificar-lhe as qualidades e a ajudar a torna-la maior.

Estamos a falar de participação cívica democrática. E estou a falar do meu empenho neste movimento por Coimbra. Esse empenho é inteiro. Já aludi à minha condição de universitário. Devo acrescentar a de economista que sempre se interessou pelo território, pelas cidades, pelo desenvolvimento regional. E vem-me à memória que vim para Coimbra com 15 anos e aqui nasceram os meus três filhos. Vem-me à memória que nasci em Aldeia das Dez, uma terra de que gosto muito por ser bonita mas sobretudo pelas gentes que lá vivem ou nasceram e de quem sou amigo. Tenho entre os meus orgulhos pessoais ser presidente da Assembleia Geral da Associação de Melhoramentos da minha terra.
O meu concelho é Oliveira do Hospital e orgulho-me muito por me ter sido atribuída, em 2008, a medalha de ouro do município, por proposta generosa de um executivo municipal com cuja maioria nunca tive proximidades políticas.
Gosto de me lembrar neste momento que sou Presidente da Mesa de Curadores da Fundação Memória da Beira Serra-A Comarca de Arganil, que relançou um jornal centenário a que muitos, nos concelhos interiores do distrito, dedicamos grande afeto, e que sou Presidente do Conselho Científico e do Conselho Consultivo da BLC3-Plataforma para o Desenvolvimento da Região Interior Centro, com a qual se estão a lançar projetos imensamente inovadores no concelho em que nasci e nos que lhe são próximos. Tenho, pois, várias terras mas todas se podem chamar Coimbra. Quero com isto dizer-vos que esta candidatura me toca a alma e é com a alma aberta que a ela me dedico.
Defendo que nos apresentemos com um programa de princípios. Um programa em que os valores distintivos da democracia local, da sustentabilidade do desenvolvimento, de uma cidade que torne feliz quem a habita, de uma administração local rigorosa em nome dos cidadãos e capaz em nome do desenvolvimento da cidade.
Coimbra precisa de muito, de muita coisa. Precisa de virar uma página longa e pouco relembrável. E precisa de ideias fortes. Sobre a cidade como lugar onde está ou não está o bem-estar dos cidadãos. A cidade das últimas décadas fez-se desprezando as pessoas e o seu conforto, não dando valor ao simples facto de eles serem quem habita a cidade. Hostilização à cultura. Urbanismo penoso e violento pensado para projetos imobiliários, para empreendimentos comerciais, para o trânsito automóvel. Chega a ser proibido andar a pé nesta cidade, tal as maldades que foram feitas aos cidadãos. É altura de pensar que um programa urgente e muito útil em tempos de crise é um programa de pequenos investimentos municipais que tenham como único objetivo desfazer os nós que
apertam o mais elementar conforto dos cidadãos que habitam a cidade e foram desfazendo, desqualificando, degradando cada espaço do tecido urbano. E que junte a isso um grande incentivo à vida associativa, cultural, desportiva.
Ideias fortes também sobre a economia, que pode ser exemplar em Coimbra se tudo o que de bom se foi fazendo, apesar de um contexto que não estimou as iniciativas qualificadas e não acalentou a ousadia, puder ser visto como uma base sólida para criação de riqueza nos termos mais avançados, com a correspondente criação de emprego, valorização de qualificações e redistribuição de rendimento. Coimbra precisa de uma economia para as qualificações que produz. Coimbra pode criar riqueza para ser mais qualificada e mais dinâmica. Basta ser ousada. Basta olhar bem o que lhe está à volta, incluindo nos concelhos que fazem parte do seu espaço de vizinhança. Basta estimar a qualidade. Basta ver-se como cidade europeia avançada. Basta ter uma
administração municipal que promova incessantemente tudo o que a qualifique e dê esperança e bem-estar aos cidadãos que precisam de emprego e precisam de ser valorizados como pessoas com capacidades. Esforçar-nos-emos por demostrar que é possível ter uma posição que, ao mesmo tempo, ame a Coimbra culta e a sua história mais exemplar e progressista e veja Coimbra como centro
de uma economia avançada que lhe dê uma posição destacada e em que as suas qualificações se reforcem, fazendo disso a base para mais coesão, mais justiça social e mais qualidade urbana.
Ideias fortes, enfim, para que os órgãos autárquicos se vejam como parte de uma forte capacidade institucional da cidade. Muito maior do que a que tem hoje.
Instituições que se respeitem, valorizem e reforcem mutuamente, sejam elas a Universidade e as outras escolas superiores, sejam as associações culturais ou desportivas, sejam os parceiros sociais, com destaque para os sindicatos e para os que criem emprego.
Eis, pois, três princípios para uma candidatura de princípios: dar valor à democracia local e às instituições da cidade como fonte de soluções para tempos difíceis; criar iniciativa municipal para que se devolva a cidade aos cidadãos, refazendo tudo o que se tornou num tecido urbano degradado, tornando-a mais humana; ousar ver Coimbra como uma cidade com uma economia relevante em
termos europeus e, por isso, mais qualificada, mais justa e mais coesa.
Fui reler há dias um texto com 10 anos que escrevi para o catálogo da exposição “Coimbra” com que se inaugurou o Centro de Artes Visuais no Pátio da Inquisição, no dia 14 de fevereiro de 2003. É um texto de afetos, pessoal e quase íntimo. Por isso não o registo no meu currículo académico e sempre gostei de o guardar só para mim. Mas agora refiro-o na vossa presença. Tem por título uma
pergunta “Por que é que inventámos as cidades?” e por subtítulo “Pequena crónica de um amor por Coimbra”. Partilho-o agora convosco e vou usar o que então escrevi: “Esta Coimbra [de que precisamos] é uma Coimbra sem dogma nem constrição. Mas é a Coimbra de um olhar que ainda não temos tido e que é preciso criar – e criá-lo para uso útil, isto é, para a engrandecer. E precisamos
bem dele, com a condição de que seja, ao mesmo tempo, inquieto, apaixonado, forte e convincente. Um olhar que os outros, todos os outros, os que estão de fora, entendam e sejam capazes de fazer seu. A relação entre a cidade e os homens talvez seja um decalque da relação entre os homens e os deuses: Quem é que criou quem? Afinal, talvez tenham sido as cidades que nos inventaram. Por
mim falo…”.

José Reis

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