Ecos de cidadania [1]

A MINHA ALDEIA. A MINHA FREGUESIA. A MINHA CIDADE. O MEU CONCELHO. O MEU PAÍS.
– ecos de cidadania

Graça Maria Jegundo Simões

1- aldeia

A MINHA ALDEIA

Há duas ideias-força que considero essenciais na modelação “ideológica” do Movimento de Cidadãos por Coimbra, porque o descolam do que têm sido as políticas do passado e porque o apetrecham para a defesa de uma política pública verdadeiramente alternativa e emancipatória.

A primeira, é o referencial de democracia participativa ou de participação cidadã, não como um ideal romântico ou utópico, com estratégias mais ou menos bem sucedidas de encenação, mas como verdadeiro princípio de construção programática e de guia prático, com soluções novas, mas enraizadas em contextos reais e práticos, das bases, ou seja, das comunidades mais pequenas, até aos órgãos concelhios.
A segunda, é o primado da rede sobre o primado da hierarquia, ou seja, o primado do território global sobre o da cidade em particular. Uma verdadeira alternativa deve ser capaz de superar todos os colonialismos e de perspetivar um desenvolvimento solidário, em que todos tenham a ganhar com todos. A cidade só se diferencia e enriquece na medida que for capaz de dar ao seu “termo”, ou seja, aos territórios e gentes em redor. O concelho só se dignifica e engrandece na medida que conseguir dar-se e apostar na sua cidade.
São estas ideias que procurarei modelar num texto pré- concebido em 5 partes, do qual se apresenta, por agora, a primeira: A MINHA ALDEIA.

1. A MINHA ALDEIA
A minha aldeia corre num vale, enleia-se numa ribeira e embala-se no eco dos montes que a aconchegam. Trepou a um deles, de onde avista a cidade e nela desagua na distância encurtada. É um mundo pequenino e semiperiférico com as decorrentes vantagens e desvantagens.
É possível que a proximidade e acesso facilitado às vantagens materiais (trabalho, saúde), a tenha distraído de valorizar mais a educação e a cultura; é possível que a facilidade individual de resolver a vida tenha desmobilizado a necessidade e o sentido do coletivo. Na minha aldeia não há dinâmicas de participação, nem espaços públicos de encontro. Na minha aldeia, as gerações sucederam-se com grande margem de desperdício na escolarização e formação.
Mas na minha aldeia há pessoas, sempre à distância de um chamamento, de uma janela, de uma necessidade. A morte ativa sempre a solidariedade total e o nascimento a alegria partilhada. A broa ainda se faz a partir do fermento circulante e o vinho com as trocas de instrumentos e trabalho.

Ainda há gente, testemunho de uma mudança libertadora, com memórias que estimulam a esperança e anseios de tranquilidade e dignidade.
Há muita gente com esperanças interrompidas, mas com desembaraço e apetência para o trabalho, que merecem oportunidades de se desenvolverem na e com a sua aldeia, sem sombras de escravidão.
Há ainda as crianças e os jovens, que podem ser ainda mais, e cuja potencialidade clama por outros modos de os ligar à terra e de construir identidades sólidas e felizes.
Na minha aldeia ainda há terras que são cultivadas. Outras que se resguardam da ocupação silvestre, à espera de outros dias e de um regresso das charruas. Ainda há animais nas capoeiras e currais e outros que se abrem para o verde e para a pastagem livre e sã.
Na minha aldeia respira-se a ruralidade, mas como se suspendesse o tempo, sem saudosismos, mas também sem futuros. Os futuros foram-se esboroando com a colonização da cidade – desde a geração de 30-50 que é lá que se ganha o pão: a terra é mais feminina e um complemento, ainda que essencial para a maioria.
Na minha aldeia há rede de água, esgotos e eletricidade. Há 15 minutos de estradas de alcatrão para a cidade. Há uma escola – fechada, claro. Há um centro social e recreativo – aberto pontualmente, por resistência de uns poucos e por falta de concorrência privada de tabernas ou cafés. Há uma capela, com sino de toque mensal e arraial de santo António, mas mirrado de propósitos e de entusiasmo.
A minha aldeia é o centro de um mundo de possibilidades. De nós a desatar e a atar, numa teia vivificante de trocas de mútuo enriquecimento comunitário. A minha aldeia, como muitas outras, pode ajudar a construir melhores futuros. Outros futuros. Sem passadismos, nem reduções. O que é preciso, antes de mais e antes de tudo, é ativar a democracia participativa, dar lugar e valor à voz de todos, não para contentar os seus desejos ou caprichos individuais, mas para os fazer sentir parte de um coletivo, corresponsáveis pelos caminhos traçados e percorridos.
Na minha aldeia irrompeu uma associação de abril – uma Associação de Moradores, com estatutos, assembleias, atividades, Comissão e sede verdadeiramente comunitária. Adormeceu, anestesiada pelas complexidades políticas e sociológicas da normalização democrática, mas nada de verdadeiramente genuíno e positivo a substituiu. A representatividade autárquica só irrompe de 4 em 4 anos e o sentido de comunidade esvai-se no cumprimento dos deveres cívicos obrigatórios.
Na minha aldeia, como em muitas outras, há uma cultura endémica de proximidade, que urge resgatar e renovar. Há ferramentas de urbanidade, como a educação e o conhecimento, que podem e devem para tal ser convocadas, mas numa plataforma de troca horizontal, mutuamente frutífera e emancipatória.
A minha aldeia, como muitas outras da minha freguesia e do meu concelho, vejo-a como alternativa de esperança, no quadro de uma ideia nova de democracia e cidadania, representativa e normativa, mas também participativa e criativa. É esta ideia nova na qual emergiu e se vai construindo o Movimento de Cidadãos por Coimbra. É nele que milito e que acrescento esta ideia para a minha aldeia.

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One comment

  • é realmente uma aldeia de tradições, e que precisa de ser “puxada” para cima, mais eventos de convívio, já não me lembro do dia que me juntei com as pessoas da aldeia para falar, rir, contar histórias etc… e porquê ?
    Porque não há ninguém que tome a iniciativa a sério de marcar um evento, uma festa chamativa, tanto à aldeia como a aldeias vizinhas… falta intervenção e animação! Falta alguém que faça algo por ela a sério… eu acho

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