“Coimbra é um alvo fácil”

joavascobarata

Escrever a motivação que me leva a apoiar este movimento seria, no essencial, o mesmo que projectar a cidade de Coimbra que eu gostaria que existisse. Uma coisa culminará na outra, não são dissociáveis e, também por isso, este movimento tem de contar com o apoio de todos aqueles que se cansaram de tudo quanto mina a nossa cidade.

Tenho 25 anos, nascido e criado em Coimbra e, olhando para trás tanto quanto a minha memória me permite, vejo que a minha cidade está igual. Está bem, expandiu-se alguma coisa, os penteados mudaram, as roupas também, tudo está mais moderno… mas tudo está igual. Talvez por tudo em Coimbra ser lento, por se gostar da estabilização dos costumes ou, se quisermos dizê-lo de uma maneira menos eufemística, por quase tudo ser permitido em Coimbra, é que nos propõem de um lado o primeiro Presidente da Câmara de que eu me lembro e, por outro, o já Presidente da Câmara que, e não creio que esteja enganado, nunca os cidadãos de Coimbra legitimaram para exercer tais funções. “É um mecanismo que a democracia permite e à semelhança do que já foi feito noutros municípios” – dizem eles. Talvez a democracia possa ser subvertida mas abandonar os princípios éticos básicos será um caminho que os cidadãos conimbricenses não podem aceitar por muito fumo que vá ser lançado até à hora da decisão. 

Coimbra é um alvo fácil. Diria mesmo que a esmagadora maioria das cidades o é. Porém, a maioria das cidades não é a minha cidade. É um alvo fácil porque com uma rede de contactos bem elaborada, em que cada um assume o seu cargo, zelando pelo seu posto mas não pondo em causa os interesses do grupo, que nunca pode cair, se consegue pôr num colete de forças qualquer rasgo que possa vir de fora desta rede de contactos. Coimbra está na mesma porque as pessoas são as mesmas (não queria voltar a isto, mas não basta olhar para quem nos apresentam como solução para chegar a esta conclusão?). Perpassa pela nossa sociedade uma pessoalização que, diga-se, se pessoaliza várias vezes, que cansa, que estagna a cidade. O prato que Coimbra dá aos seus cidadãos é invariavelmente o mesmo, as rotinas culturais, desportivas e cívicas são sempre as mesmas e tornam Coimbra numa cidade desinteressante no dia a dia. Faça o leitor o exercício de pensar em todos os meses do ano e vai ver que consegue dizer o que acontece em cada mês e com quem.

No entanto, o potencial de Coimbra, de quatro em quatro anos é trazido para a praça pública. Este potencial é tão grande que, dizem-nos, é uma inevitabilidade Coimbra tornar-se na terceira maior cidade de Portugal. Falam de uma cultura de exigência mas não acreditam nela porque, e esta afirmação parece-me ser clara, essa cultura não lhes interessa, não é útil para o programa (o que praticam, não o do papel) que os motiva. Acaba o circo eleitoral e lá se fazem os favores aos mesmos de sempre, os lobbys são reforçados e os cidadãos ficam com uma cidade previsível, cómoda. Não haverá mais ninguém a querer mostrar-se em Coimbra ou será que o nosso mercado está tão fechado num círculo de pessoas que não querem dar mais espaço a outros?

Esta ideia é reforçada se olharmos para alguns dos marcos da nossa cidade ou não fosse conhecido de todos nós o cliché dos microcosmos, com os mesmos vícios, em que se tornaram algumas instituições de Coimbra. O bom de ser um cliché é que já é partilhado por muitos, muitos que estão fartos de ver a sua cidade apática.

Apoio este movimento porque Coimbra precisa de uma mudança e não de um regresso ao passado que, como pude partilhar, continua a ser o presente. Porque estou solidário com todos os que ansiavam por uma resposta daqueles que mais se interessam pelo bem da nossa cidade: os seus cidadãos. Apoio este movimento para mudar a cidade e para, de facto, lhe dar as oportunidades de se tornar uma cidade melhor. Sem demagogias, sem populismos, sem vamos ser a Roma do Império Romano, sem nada disto, mas com cidadania, ética, com oportunidades justas e não com uma sociedade previsível. Muitos criticam a história coimbrã, as suas tradições e até as suas lendas. De quem nada tem há décadas, queriam que se orgulhassem de quê?

 

 

João Vasco Barata

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